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sábado, 3 de janeiro de 2015

À galope


Um garoto no limite da adolescência, no auge dos seus ímpetos, vê sua imagem refletida no fundo de um precipício. Lança-se sem receio num mergulho tentando apaziguar a rebeldia. Seus ossos em distensão junto das emoções em desalinho. Sentado sobre os calcanhares, acompanha o vento que empurra grotescamente as cortinas da normalidade. Por um fio de abertura, enxerga a verdade tomar forma.

Vê o mundo passeando por longas e previsíveis estradas. Sente um forte cheiro de náuseas. A vertigem transita na sua transformação. Assedia seus esconderijos que guardam seus álibis e que queimam ao sol. Em duelo ininterrupto com o sono, recusa-se à submissão do absoluto.

Era a própria figura do jovem embrulhado no papel tênue da aventura. Esquecido entre outros gemidos, contas a pagar, soluços e defeitos, esforços e loucuras, do tempo incompreendido de velhas e ultrapassadas memórias, verticalizadas nas melancolias de histórias que nunca foram escritas. Percebe o amor em frangalhos que inutilmente cultuam. Sobram unicamente as marcas que permanecem na pele, simbolizadas em caveiras esculpidas no peito e as cicatrizes de erupções escavadas na face adolescente.

O nariz arrebitado presumido na sua importância de superpoderes. A certeza de uma morte ausente ou distante da sua pressa legítima. Nenhuma barreira conterá a força dos seus dedos num gesto escrachado e obsceno.

Finalmente o homem recém transportado dos hormônios em fúria, bisbilhotando os detalhes da sua biologia.

                                                             

     

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Promessas


Do pacto de amor firmado às derrapadas imperdoáveis das violações.

Os livros que fiquei de ler, as viagens que não fiz, os vínculos que devo estabelecer, as habilidades que preciso aperfeiçoar, os equívocos que buscarei reparação.

O tédio das repetições, as armadilhas da venda que tapa os olhos, as mentiras e omissões, as ilusórias obediências. Confissões, conveniências, influências.

O sangue escoado das promessas não cumpridas, as palavras gastas pela raiva, o fogo das munições disparado no ponto vulnerável das fragilidades.

Os juramentos na corda bamba, contorcendo-se para se ajustarem à verdade. Àquelas prioridades organizadas numa agenda agrupam-se à esperteza dos desejos afoitos. Fatalmente, os apelos instantâneos serão atendidos sem atraso.

O barco ancorado no cais de todas as esperas, está presa apenas por uma corda frágil, que a qualquer momento poderá ser rompida.

Baixam-se as armas, erguem-se outras defesas, novos escudos. Diminui o fôlego, nasce o silêncio. 

E ano a ano as promessas continuam...

                                                              
                                  

     

     



     

     




                                                            

domingo, 28 de dezembro de 2014

O poder da renúncia


As oportunidades podem ser representadas como uma linha reta, com limite de velocidade e regras de ultrapassagem. De tão longas não permitem a visão do ponto de chegada. Tornam-se enfadonhas e entediantes para os resultados imediatos. Tudo aquilo que envolve espera e paciência, vemos com com certa resistência. O tempo de maturação é geralmente incompatível com as impetuosidades da pressa. 

 Tendemos a aderir aos desvios. No primeiro retorno dispõem-se alternativas que sugerem um trajeto mais divertido, mais lucrativo, menos austero e mais rápido. A simples ideia de transgredir já alimenta a fome do alcance. As sinuosidades e surpresas da estrada se aproximam do espírito de aventura. Nenhuma oportunidade condicionada ao longo prazo merece melhor avaliação por uma sociedade imediatista. Nada melhor que os atalhos para atenuar as supostas delongas.  

O assédio de novas possibilidades se projeta com argumentos suficientes para a mudança de rota. Dizer sim, nem sempre é avançar. Discordar, nem sempre é regredir.

                                                                        

     

     


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Imóvel


Envolvido naquele abraço prolongado, onde o calor e o abrigo procuravam encaixe. Estendemos aquele instante como se a apresentação fosse o início da despedida. Olhos fechados, vasos dilatados. Pernas paralisadas, a paixão se exibindo. De fundo, só o barulho das esquinas, o ruído das buzinas e a conspiração dos ecos constrangedores do silêncio. Algo acontecia dentro de nós.

Os longos cabelos encaracolados, os olhos castanhos enigmáticos, o corpo perfeito para a medida dos meus braços. Abraçada a um violão, falou a multidão do amor sufocado, dos furtivos momentos da paixão exagerada. Encantou com seus acordes o entusiasmo dos meus ouvidos.

A cortina de poeira começou a assentar quando surgiu a presença de alguém que já ocupava o espaço que pleiteava. O Amor inesperado revelou-se proibido à medida que outro personagem já encabeçava a função de protagonista. Aquele abraço eternizado no sonho, tornou-se clandestino quando descobri que estava patenteado.

Em carne viva, vi minhas ilusões sangrando sob a visão de um amor impossível. Atravessar e me entranhar num espaço em branco poderia representar apenas um capricho. Seria estupidez fomentar uma disputa baseada apenas nas minhas extravagâncias.

Vagueando em mim, encontrei a propensão de amar o que não tinha, de ambicionar a excelência que não me pertencia. O que me excitava era embaralhar o jogo, me infiltrar como elemento novo, quebrar o tédio que transformaram em bagaço.

Tenho adormecido protegido ao sabor daquele abraço.

                                                   

     


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Nunca esqueci...


De uma velha senhora que driblava o frio da rua e os perigos de moleques larápios que ameaçavam surrupiar seus pertences se amarrando com sacos plásticos. Esse improviso dificultava qualquer infrator de se aproximar e de tocar nos seus valores, sem serem denunciados através do barulho. Aquela espécie de alarme plástico, criativamente adotada por ela era mais que um artifício de segurança. Representava sobretudo, sobrevivência.

Costumava frequentar uma esquina das ruas importantes de São Paulo. Voltando do trabalho fui despertado por um radinho de pilhas com um som destoante do silêncio dispensado no avançado das horas. Cautelosamente e curiosamente me aproximei... A partir de palavras engraçadas e leves, desenvolvemos um vínculo indestrutível.

Aos poucos, construímos uma relação de confiança. Notei traços de uma bonita senhora no passado. A respiração ofegante e algumas marcas na pele indicava uma possível saúde debilitada. Apesar de não abordarmos aspectos pessoais de intimidades, envolvendo família, o pacto entre nós foi se tornando cada vez mais firme. Talvez por medo de que ela repentinamente se afastasse, respeitei o espaço delimitado nas entrelinhas da estranha simetria.

Um dia, surpreso, não mais ouvi o som do rádio tão familiar. Meu olhar circulou todas as direções em busca de resgatar o motivo da minha alegria diária. Aqueles encontros, mesmo que breves, me faziam melhor. Inexplicavelmente maior. Flagrei-a no outro lado da rua, subindo num ônibus, transportando nos ombros seus cacarecos e seu invento de plástico. E pensar que naquele invólucro, carregava sua vida. Como somos tolos! Sempre angariando títulos, que nos atribua poder, ambicionando materialidades desnecessárias! Encerrava-se ali nossa ligação. Um certo vazio se abateu sobre mim. Acabara de sofrer uma perda. Ficara órfão, mas certamente, nunca mais me sentiria sozinho.

Nunca mais a vi. 

                                                                 


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Preço do passado


Idas e vindas, encontros e despedidas. O amor que não tive ou provavelmente não enxerguei. Ocupei-me demais na busca da perfeição inalcançável. Esqueci-me que fui feito com a possibilidade dos equívocos, com outras alternativas além do que não conheço em mim. Por um momento fui ludibriado pelo que a curvatura dos teus lábios deixaram escorregar. Um cérebro puro deixou-se manipular contagiando cada minúscula célula só para compreender como o amor se move. Por um fio não fomos tragados pelo passado implacável e quase matamos o presente que se arrasta conosco. Descobri  espaços em nós que só o tempo poderá ocupar. Ando ferido demais para apostar em aventuras, cansei de equilibrar meus desejos num pires. Preciso de volume, busco profundidade.

Aqueles beijos roubados desordenadamente na volúpia felina foram necessários à percepção do quanto estamos condicionados às reações físicas. Nesse terminal de dados repetidos faltava a comunicação dos abraços. Faltava esticar os braços na direção dos campos floridos como um rio entregando a tocha para  a imensidão do oceano, Faltava despirmo-nos de sonhos antigos e  adormecer ao som da eternidade dos amantes. Sem perceber, em ti tropeçava. O passado irônico tentou pousar a vergonha do fracasso nos meus ombros. Sonhos maiores bloquearam a inflação. Se o passado apresenta um preço, o futuro garante o recomeço.

A cama antiga e desengonçada no contratempo do prazer cego, que um dia comportou o imediato dos fluídos naturais, ganhou contornos sensoriais verificados no toque do hoje. Quero a luz que penetra a fachada das nuvens, a coragem e desembaraço dos lírios que enroscam-se nos troncos. Quero exterminar os insetos exuberantes que sobrevoam meu sono. Quero colocar alma e emoção nesse boneco curvado sobre uma alegria forjada. Quero ocupar espaços, apresentar meu tamanho.

Adormeço com o sono a pedir mais sonhos. Posso até sonhar, desde que outro sonho. 


     


sábado, 28 de julho de 2012

A cruz e a espada


Por um tapete alvo de areia sigo sozinho por opção. Flagrei-me depois de solteiro excessivamente inconstante e introspectivo para ser compreendido com a leveza que acredito e busco. Persigo a passos solitários eternas lembranças de oásis e abismos. O sol que incandesce as nuvens emaranhadas e frias como gravuras de gelo, queima aos poucos minha sombra. Deixo-me dobrar, agacho-me sobre a tela imaginária de areia e rabisco trechos da história que não foi minha, foi nossa. O vento varre calçadas, ilusões, conchas e gaivotas. Lá do alto, sopra os embaraços das ondas, espalha a espuma das bocas famintas (fusão ofegante de sílabas e salivas), dos sonhos escritos em cada grão, de cada palmo do meu vulto silencioso. Assobia nas minhas orelhas o canto suave do silêncio. Em cada promessa um fracasso. Em cada palavra um dicionário a interpretar, um segredo entocado na vastidão dos teus olhos. Nos cabelos esvoaçantes enlaçam-se fios de alegria e alguns laços abstratos de fita azul (como as imagens criadas e imaginadas). Em cada investida uma renúncia. Em cada conquista uma pausa. Estou estático, tentando manter em equilíbrio os pensamentos que rodopiam.

Corro em disparada no solo arenoso como se me evadisse em fuga, como se pudesse ir de encontro a mim. À frente um deserto longínquo de tédio. Bateu-me a preguiça de tentar de novo. O horizonte é possível para todos, mas definitivamente não me atrai essa aposta. Conheço à exaustão as manobras da sedução. Abstraio-me dessas dores masoquistas. Até participei com entusiasmo inicial de jogos que se mostrariam inúteis, insuficientes. Queria apenas descobrir-me simples, tocar o céu com os dedos como se dedilhasse a textura das sensações. Queria a certeza das coisas verdadeiras, a fé do tangível, o  reencontro (pelo menos comigo). Quero por inteiro a cruz que me salva e a espada que preciso.

Tento lembrar da felicidade ausente, nunca sentida, nunca permitida, dos sonhos discutidos na razão inocente, dos sorrisos insossos transplantados dos enganos, dos tratados contraditórios. Convenço-me finalmente da inabilidade para fazer alguém feliz. Sou intenso demais para querer tão pouco. Por algum tempo mantive a possibilidade de desejar companhia, mas passou.  Não estou triste e nem tampouco derrotado. Ao contrário, uma segurança e autossuficiência me sustentam  e me estimulam a acreditar. Estou apenas contrariado por compreender o rompimento necessário do que poderia ter sido.

Deixo os sonhos para os que dormem. Os meus, que sejam acordados, espertos e reais.

                     

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Crise de memórias


E de repente um perfume impregna o ar e as lembranças. Passeia descomprometido diante do olfato. Entranha o fôlego e confunde-se com o oxigênio que banha a barba e o travesseiro. As mãos macias e delicadas deslizam com a certeza do que buscam alcançar. Suavemente mostram suas garras.

Os seios perfeitos insistem em não ficar de bicos calados. Insolentes desafiam a lei da gravidade e não se deixam abater. Falam com a linguagem da pele e exploram cada centímetro do corpo entregue. Petulantes, altivos, senhores de si, eretos. Fazem sulcos no peito submisso. Abrem trilhas nos arrepios, se encaixam na medida exata dos pecados de sentir, apalpar, de quase possuir com as mãos.

Desenha a ousadia de um número oito num trote inexplicável. Com a voz embargada, entrecortada pela lascívia dos desejos camuflados entre as rochas do recato, pronuncia em gestos pequenos a grande voracidade  de querer.

Mãos de desejos tateiam na madrugada as mesmas fantasias. Impõe resoluta e absoluta sua prece em forma de beijos. Parte ao meio supostas verdades, esmigalha em pedacinhos a compulsão entediante da repetição. Faz-se outra,  renasce sedutora numa manhã despenteada.   

Olhos expressivos ardem na despedida. Afastam-se com medo de partir, de não mais existirem. Transbordam em impotência, perdem-se no vácuo da distância, escurecem, petrificam, interrompem-se no sutil intervalo de um piscar de incerteza.

Umidade que afoga, língua quente que derrete a censura, invade com toques matreiros e macios os pés embaixo do cobertor. Vasculha sem pudor as encruzilhadas das virilhas, morde o ar que falta, suspira a paixão que sobra, mastiga as fantasias, acorda a libido, arrasta deliciosamente gotas e líquidos do pote prestes a explodir.

Atinge à queima roupa os esforços dobrados para não se curvarem à monotonia. Silencia com carícias e abraços longos o tempo que, falsamente sem graça, se prolonga nas curvas intrigantes daqueles instantes.

 Deixo-me dominar finalmente pelas memórias teimosas que durarão uma eternidade.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Por defesa


Todos (indiscriminadamente) se protegem em roupas emprestadas ou faces imaginadas perfeitas. Tudo por receio de expor algumas debilidades disfarçáveis e indefensáveis. Deparei-me dias atrás com um jovem olhando atentamente para o chão. Parecia absorto e enfeitiçado com algo aos seus pés. A passos curtos e lentos simplesmente girava. Poderia imaginar um louco em crise. Diferente disso fiquei imaginando o que aquela extravagante coreografia significava. Louco seria eu se deixasse de considerar que atrás daquele aparente disparate haviam milhões de pensamentos furiosos. O que o levaria a andar  em círculos como se pudesse alcançar no chão respostas para suas angústias? Que atenuante se encerrava naquele ritual excêntrico? Minha curiosidade estava desgarrada dos julgamentos. O que menos interessava para mim era a estética, como se vestia, seus hábitos diários. Queria sobretudo encontrar na sua "loucura" algum ponto de convergência comigo. Sempre observei no ser humano a nascente criadora de toda a originalidade que me fascina. Obviamente não enxerguei aquele rapaz numa esteira, praticando exercícios para voltar à forma. Nitidamente havia um cara perturbado. No mínimo surpreso por estar fora da zona de conforto. Compreendi metaforicamente que quando perdemos a capa maternal fica difícil administrar nossa fragilidade. Espaços vulneráveis ameaçam profundamente nossa condição de vivos. Fiquei imaginando portas que hesitei atravessar, situações de dor e embaraços que enfraqueceram minha ousadia de ver. Deveríamos olhar ao nosso redor com a intensidade de quem sugere interesse. Muito acima dos nossos interesses pode haver cenários fantásticos que por defesa, ignoramos.

Vejo assim, ou pelo menos procuro.

                                                     


domingo, 26 de fevereiro de 2012

O amor à espreita


Certamente será repentinamente surpreendida por uma astuta raposa que avançará sobre teus hábitos e te enlaçará em volta do pescoço uma pele diferente da sua. Esquecerá por uma vida que a vida que vivia era uma imposição e não uma escolha. Será ridícula vez em quando com contos de fada à bordo de um bote furado, com bilhetes açucarados, melados com apelidos caricatos. Esquecerá de si mesma e até das leis dos adultos, resumidas em não andar descalço (exceto para ser mais ágil). Não tomar chuva (exceto para ter companhia embaixo de um guarda-chuvas). Não ficar exposto ao sol do meio-dia (exceto para perder a hora sonhando). Não apoiar os cotovelos na mesa (exceto por admiração).  Não falar alto (exceto para fazer ecoar aos quatro cantos o amor que desconhecia e que inconscientemente evitava). Não falar com estranhos (exceto para aproximar-se da intimidade e tocar na privacidade). Deixar-se exposto na vontade de entregar-se.

 Dar-se-á conta que inadvertidamente ofereceu teu pescocinho imaculado para um desses vampiros prestes a abocanhar tua jugular. Junto com o sangue irá sugar sua fé, sua identidade, seu tempo, seu espaço, sua história. Bastará um breve toque na nuca para que se derreta feito manteiga, meia dúzia de  promessas embrulhadas em “verdades” por interesse, enfeitadas com laços trapaceiros. Sinto muito, descobrirá o verdadeiro sentido de estar em maus lençóis.

Surpresa, boquiaberta, despertará para olhares intensos, incompreensíveis, descarados. Atônita, verá belos e inesquecíveis sonhos em pesadelos. Participará atenta de narrações que não te incluem. Fará o possível para aparecer como destaque. Será a todo custo o gancho que faltava para um desfecho feliz. Desempenhará a mais perfeita das companheiras até perceber que o amor que alimentara era apenas uma chama que se apagaria com um simples espasmo de decisão: Não é suficiente.

Ouvirá sons de sinos por toda parte. Mudará a percepção das cores, dos defeitos, dos enfeites, das luzes, desse e de outros amores.

                                                           

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Recanto dos sonhos


Plantada entre o barulho ensurdecedor de crianças empinando pipas e de pés descalços violentando uma bola já furada, rasgada por unhas maltratadas, bolas de gude que cruzam as valas numa disputa acirrada pelos buracos, está uma casa amarela, pequena, camuflada entre o aconchego e o início da partida. Protegida por um grande portão de madeira, circundada por uma escada de cimento, onde dois garotos sentados nos desfiladeiros dos seus planos viajam livres por esconderijos escondidos na trama do futuro. Abraçados aos joelhos, vêem os últimos suspiros do sol e os degraus presos aos seus pés, encobertos pelo pó levantado nas ruas de terra solta, de histórias mofadas entre as paredes de outras casas amarelas.

Éramos a definição exata dos excessos: barulho ao mascar chiclete e chupar sorvete, acúmulo de brincadeiras sem graça,  gargalhadas sem motivo, projetos degolados ainda no berçário, paixões por absurdos platônicos, banhos exagerados em curtos intervalos, receio de serem legítimos os comentários acerca de práticas exaustivas na descoberta do corpo levar ao crescimento de pelos nas mãos, grandes olheiras escavadas no confronto com o sono. Intempestividade do imediato, rebeldia por espaços a qualquer custo, peito de aço, sonhos ilustrados nos quadrinhos, conjugações no aumentativo das dores, das paixões, das inseguranças, da fragilidade verificada no tamanho do pé.

Diante dos nossos olhos, serpenteavam meninas sugerindo denúncias de mulher no arredondamento das formas e bicos dos seios agressivos, proeminentes e pontiagudos, rompendo as fantasias dos adolescentes inflamados pelos insultos da natureza. Exibindo e exalando seus desejos em forma de jogos e malícia que nem mesmo conheciam. O gênero feminino já carrega consigo desde a concepção armas biológicas de sedução. Comportam os genes hereditários da intuição. Algumas têm cacoetes de moldar cachos nos cabelos, outras deslizam ao andar, gingam seus quadris entranhando o ar com um cheiro de vício, de viço. Espalham no ar feromônios. Passeiam em bandos com vizinhas fingindo vergonha, sussurrando segredos inconfessáveis (abafados por mãos em concha), Guiadas como flechas certeiras arremessadas por arqueiros eficientes, plenamente conscientes do alvo escolhido.

Parte do que fui ficou armazenado lá atrás, onde agora os sonhos parecem ganhar sentido.

                                                          









quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sem fôlego


Duas bolas de fogo se derretem em chamas, cospem fagulhas e palavras com cheiro de cinzas. Verbos incandescentes e indecentes enfeitam os suspiros quentes, fazendo bolhas e estourando o tesão sem escrúpulos, que escorrega pelos becos sinuosos da intimidade até a contenção das ilusões de felicidade ao despertar. Numa ternura cínica arrebata-me pelos ombros, atira-me contra a timidez que me esconde, arranca com fúria os segredos debaixo do meu espaço reservado, atiça com seus atributos meus miolos, roça sedutora com os lábios os fios primatas da minha barba por fazer, arrebenta botões e zíperes com a pressa de quem não vê a hora do prazer explodir, faz ferver com seus compartimentos vulcões, tufões e jatos de lavas. Entre sucção e cavalgadas mergulho nas entranhas da tua carne dourada preparada para um banquete. Carícias e fricções de dois corpos entregues às fantasias de adormecer engatados. De morrer juntos, atados, ilhados... Da respiração ofegante à recomposição dos pulmões. Transito entre a brisa que nos refresca na madrugada e o sabor entre as tuas coxas.

O calor faz voar os lençóis e peças próximas da pele - vítimas constantes do pudor hipócrita que nos envolve. Sem sentir que os pés descalços ainda queimavam no desembarque ao tapete, sem nos importar com as asas chamuscadas no decolar da nossa fuga infantil esquecemos que a vida pulsava lá fora, que além dos nossos desejos existiam outros estágios, outras emoções fora de nós.

Confesso...

Desarmaria um exército de milicianos só para segurar teus quadris outra vez. Renunciaria ao apetite voraz do meu ego só para te perdoar de novo. Rejeitaria os apelos dos teus sussurros só para ouvi-la de verdade. Recusaria seus pedidos fora de hora só para me sentir importante nos pedidos seguintes. Encaixaria-me como peça perfeita no teu mundo de boneca só para ser o seu brinquedo e penetrar o teu castelo só mais um segundo. Dessa vez nu por inteiro.

Encontraria uma maneira de encontrar os teus olhos e assim como na primeira vez, vê-los sorrir, dessa vez definitivamente.

                                                          

sábado, 21 de janeiro de 2012

Vazio


Branco, liso, vazio... Deitado com as mãos na nuca e as pernas apoiadas no imenso espaço abstrato construído a partir do vão das minhas criaturas. À minha esquerda, junto de um coração aflito, estampado nas paredes macias, alvas, irritantemente perfeitas que quase me tocam, um papel amassado, torturado pelas mãos psicopatas dos erros e caligrafia analfabeta. Identifico cada senha incrustada na irônica piada de mim mesmo. Às vezes vejo graça nas imperfeições, até nas rasuras de um rascunho atirado ao solo.

Transformo o piso frio num leito em brasa onde cruéis correntes visitam meus pulsos. A boca lacrada balbucia seu nome em vão. Ecos silenciosos são devolvidos a um palmo de mim mesmo. Nesses quatro cantos onde busco medidas, num esforço incomum percebo a minha ausência.  Sozinho sou muitos, sou maior, melhor que nada.

Recebo golpes secos de vento, inalo sopros estranhos que vão direto ao estômago. Esticado no centro de um quarto amplo, falta espaço apenas para os pequenos pecados resultados da contravenção de crescer. A janela esquadrinha o sol em frestas entre meus cabelos ralos e mente curiosa. Sol que ousa despertar minhas pestanas, desliza sorrateiro sobre a silhueta da minha sombra. Transporta-me à infância onde despontam os primeiros indícios de um sonho tolo: Amor eterno.

Plantados num vaso estão todos os galhos secos que pisastes. Encolhidas e esquivas, recolheram-se as promessas que não cumpri. Não saíram do papel. A proposta era interessante: Seríamos imortais nas nossas cascas frágeis e intocáveis, na ousadia de competir... De jamais perder.

Acima de mim pairam os segredos traídos que rasgam o meu peito descoberto. O céu que procuro está encoberto por um teto branco, liso, vazio.

                                                                 


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Vaga viagem


Encharcado de lembranças e nostalgias me apoio no que sobrou de mim e na companhia de um cigarro aspiro as cinzas do passado. Dividimos nicotina e recordações. Tabaco e outros inimigos eu tiro de letra, o que me incomoda é o gesso que me imobiliza, é o resgate do passado que passou a galope sem o menor interesse de quem esperava por uma simples carona. Não sei viver de mentira. Só enceno e aceno para os estilhaços da minha emboscada real. Sou as memórias inteiras, as verdades palpáveis, as intensidades vividas, a lenta absolvição dissolvida no júri penal. Como produto perecível estou condicionado a me equilibrar sobre datas, geralmente prescritas. Os espinhos que perfuram as páginas da minha história são imortais. Já tentei atear fogo, mas as labaredas renascem ainda maiores, queimam qualquer esboço de reação. Sentado na varanda ouço o canto de sabiás que anunciam com sabedoria a ronda de intrusos. A sinfonia melódica orquestrada fora da gaiola só é interrompida nos intervalos irregulares em que mudam de posição tanto nos galhos quanto na classificação vocal (amadores de karaokê, sopranos ou tenores). Os Gaviões e demais inimigos são afastados do coral. Garras destoam da harmonia de gargantas afinadas (não afiadas). Uma máfia de galinhas esfomeadas disputa à unha grãos perdidos e farelos de qualquer coisa. Tomam conta das minhas pernas e se apossam de tudo que se aproxime do comestível.  Bicam com furor insetos e outros corpos rastejantes. Só eu que também me arrasto, sou afastado do cardápio. Sou indigesto.
 
Raios de sol atravessam a sombra de frondosas mangueiras. Formigas enfileiradas marcam as folhas com resistentes mandíbulas adaptadas para assinalar sua presença e, numa rapidez atrapalhada esbarram-se umas contra as outras, como se as folhas em fuga disparada se evadissem em correria. Enquanto aquele momento de contemplação se esvai, fico na efervescência (dentre tantas) viagens.

                                                      







terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Utopias


Era o que sorria no vácuo dos meus cálculos mal feitos, na insensatez das minhas atuações de indiferença.

Era o que via nas imagens trêmulas e desfocadas. Acreditava nos demônios vestidos de branco, nos castigos esculturados a partir dos palavrões inocentes proferidos no auge das turbulências imaginárias. 

Era quando me imaginava  no topo de uma encosta, próximo da linha do horizonte alcançando o céu. De braços erguidos tocaria nos mistérios insondáveis além dos sentidos espalmados ao meu alcance.  O meu tamanho reduzido impediu que me misturasse às estrelas, fizesse das minhas costelas constelações. Obstruíram minha vontade de levar comigo uma fatia do sol para evitar o inverno e não me sentir tão só. 

Era quando supunha enxergar a perspectiva das cores pelos meus olhos castanhos. Seguindo o meu delírio as cores escuras não existiriam. Exceto a poesia desse estranho processo seletivo onde os tons amargos eram destruídos. Sobrou-me a neutralidade da loucura real. A nitidez dos sonhos é pontiaguda como lanças, fatal como um disparo à queima roupa  e tão necessário quanto as minhas utopias.

Foram os sonhos que tive de olhos abertos em vigília cautelosa e, cerrados para fingir que não sentia. Os erros e desperdícios desnecessários. A minha teimosia sempre foi maior que as evidências. Com pompa e circunstância  sou o silêncio de todos os gritos, as cicatrizes de todas as colisões.

Eram a sorte idolatrada, acariciada entre os cobertores de ilusões que me aqueciam.

Eram os ímpetos velozes dos espasmos refletidos na ira repentina. A arritmia nunca compreendida da minha insistência.

Eram espelhos que simulavam a imagem sem defeitos, dos cabelos encaracolados em forma de nuvens, da vaidade expressa na minha cara lavada.

Eram as marcas pressupostamente indeléveis deixadas na minha pele com o simples toque dos teus dedos, a maneira com que pronunciava o amor apenas escrevendo.

Não tenho mais dúvidas: Fui enganado e ainda assim não desisti de sonhar.

                                                   

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Pela metade


O que algumas incompatibilidades nos afastariam outras identificações nos uniriam. Sejam por discrepâncias sociais ou por admirações combinadas com almas reveladas nas semelhanças. A analogia da atração estava contida na minha história e na sua liberdade. Éramos a parte maior do que não aconteceu. O destino exigiu de nós o combate fracionado. Divididos, diminuímos as chances, reduzimos a potência quando deixamos as mãos escaparem. Abreviamos por descuido nossos laços, tratos, abraços. Os desejos não alcançaram a cama e as fantasias. Eram superiores outros motivos, eram maiores argumentos que explicavam nossas procuras. Foi um amor sem reservas. De tão puro e verdadeiro só  o tempo e distância interrompeu.

Perdi-te entre os anéis exóticos e os adornos indígenas que colecionava. Tentei compreender a fênix que ilustrava suas costas e as tribais fincadas nos teus dedos. Adepto do futebol incorporei novas expressões e impressões inerentes ao surf, esporte praticado por ela. Linda, curtida pelo sol, capoeirista, amante de berimbau e de reggae, personalidade forte e espírito hippie. Dispusemo-nos a compreender a distância entre nós e a proximidade manifestada nas nossas curiosidades. Enquanto ela me satisfazia com livros, eu sabia exatamente que itens como bolsas, biquínis, chapéus e óculos saciavam seus aniversários.

Nossa relação patrão/empregado ultrapassou os limites da profissão. Com a admiração, surgiu a força da amizade. Nunca sentei num banco de areia para observá-la dropando as ondas, cavalgando sobre os sabores do mar, tropeçando sobre as vacas inevitáveis das manobras ousadas e excêntricas. De longe me limitava a conferir o acondicionamento das pranchas antes das viagens.

A praia da Joaquina - Florianópolis e Maresias – litoral norte de São Paulo tornaram-se reduto dos nossos debates. Acompanhada do seu namorado, trafegava pelo Brasil em busca de sol e ondas perfeitas. Não guardava e nem guardo nenhum amor platônico, nenhum sentimento enrustido, apenas dividia um amor sem reservas, inexplicavelmente puro, baseado na confiança. Inclusive minha ex-esposa partilhava das mesmas impressões. Tornaram-se amigas incondicionais. Estivemos em todas as apresentações de dança protagonizadas por ela. Bronzeada, panturrilhas esculpidas na dança, olhos e cabelos mel, Simples, sem ostentações. Humilde sem a arrogância dos que se acham suficientes. Cobiçada por todos que se aproximavam. Implacável quando observava seu espaço ameaçado. Capaz de sacar uma arma diante da expressão idiota  e machista: delícia.

Sabe o que mais?

Foi até divertido presenciar um playboy se desmanchando em suor diante da reação inesperada da bela que, dependendo da situação sabia encarnar a fera.

Não posso considerar-me completo convivendo com a saudade do que me falta.  Ao distanciar-me mudando de cidade, alterei naturalmente a agenda com uma nova seleção de amigos. Esqueci da identidade que carregava, dos antigos amigos vinculados à minha história. Mesmo porque imaginava que a qualquer tempo resgataria vínculos suspensos, jamais esquecidos. 

A tua perda irreparável implicou na mudança de endereço e contatos. Uma única carta ainda sobreviveu na tentativa desesperada de uma retomada. Guardo em separado uma última conversa que eventualmente recupero, onde com tristeza sublinhava a necessidade da manutenção esporádica de amigos. A atualização  referida por ela implica por vezes, recomeçar do começo. Nesse reinício eu ainda não deveria existir.

Devolve a outra metade!

                                                        


















quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Anônimos?


Engana-se quem acha que o anonimato protege os infratores. Que sob o abrigo de manipulações escapam ilesos na sua suposta privacidade. Por acaso, a causalidade os flagra sem intenção e desproposidamente (no caso, eu). O causo pode atingir o caos de consequências impensadas, quando confiscadas por olhos mercenários. Em tempos hiperinflacionados tudo está à venda (inclusive pressupostas informações). Constrangimentos são transformados em comércio. Chantagens por vantagens apelam e pelam por maldade e diversão. À frente, compromissos são ameaçados por riscos não calculados, traições correm perigo.

Trabalhei por anos numa Empresa que parece ter sido a única. Toda a minha vida parece se resumir a uma estrutura que nem existe mais. A janela da minha sala tinha como panorama frontal um motel de luxo. Algumas vezes fui testemunha de carros de polícia em companhia de mulheres destruindo álibis de companheiros em aventuras (geralmente vespertinas).

Entre as minhas atribuições diárias, estava a administração do Departamento financeiro. Cotidianamente me deslocava a pé até a Instituição bancária nas proximidades do meu trabalho para proceder às movimentações obrigatórias. Acabei desenvolvendo vínculos entre os funcionários (alguns até íntimos envolvendo filhos, esposas e residências). Era atendido, muitas vezes por uma mulher muito sedutora, cabelos curtos, esguia, bem articulada, desembaraçada e prática. Nosso contato limitava-se aos protocolos dos nossos ofícios. O banco tornou-se uma extensão da minha casa.

Controlava a Instituição bancária um homem áspero frio e inflexível. Dado a poucas palavras, arrogante, intimidava com a postura implacável dos ditadores. Soube nos bastidores que comportava no seu perfil um primata, machista e suficientemente absoluto.

Na volta sempre apressada na retomada de mais um dia estafante, vejo um carro estacionado com dois componentes em um amasso enlaçado, longo e sem delongas. De imediato pareceu-me familiares, mas segui no encalço do que me interessava. De repente passa por mim um veículo em direção ao motel com os dois flagrados momentos atrás em preliminares de tirar o fôlego. Riam sem controle e a culpa parecia apenas pressa e excitação.

Dessa vez não tive dúvidas. Tratava-se dos dois citados nesse relato.

Não me surpreende o tesão reprimido. Só imagino que hora ou outra pessoas diretamente ligadas aos dois irão surpreendê-los. Penso mais:, nas vezes que coincidentemente encontrei pessoas que nem imaginava. Pensamento primeiro: “Ufa! ainda bem que não estava fazendo nada de errado”.

                                                                

















sábado, 17 de dezembro de 2011

Contraste


Aprendi a me convencer que além das tuas curvas existiam outras fendas menos secretas. Mesmo sem querer conheci o sabor de outras bocas, a hospitalidade de outras pousadas. Compreendi que a infidelidade é apenas uma possibilidade que se manifesta casualmente, pontualmente nos pontos mais frágeis dos homens. A fidelidade que julgava apenas como um dogma religioso, foi infiel. Fui traído. Diferem-se as relações maduras das amadoras as que conseguem administrar as rachaduras. Defendi honestamente a habilidade de desmistificar o código do seu corpo. Todos os toques foram sentidos, consentidos, divididos. Da tua boca sufocada pela ausência de ar, soprei sílabas de desejos e hálito de pecados. Assumo minha postura de anjo e demônio da mesma forma que deveria acolher os créditos intermitentes de santa e de  puta. Subornei o tempo para recompor o ritmo que precisávamos. Tentei domesticar os teus vícios, frutos de uma criação protetora e me tornei prisioneiro (fui conivente). Avancei decidido sobre as tuas inseguranças. A violência da tua severidade violou a minha paciência. Fiz das minhas hesitações o quintal tranquilo do meu repouso em desespero. Tentei compreender as encruzilhadas da tua rota e me perdi entre as rochas que te guardavam. Cruzei o emaranhado complexo das tuas fantasias e fui ridículo ao ceder aos seus caprichos. Submeti o calor latino à frieza escandinava - quase me tornei frustrado por me achar culpado. Do amor definido nos bilhetes e encontros furtivos foi revelado a parcela sofrida da verdade partida. Éramos mais do que supúnhamos. Multifacetados, compostos de muitos. Não soubemos lidar com as múltiplas invasões que intimidaram nosso sono.  Bastava a  simples compreensão da renúncia necessária para evitar a solidão do vazio.

De um lado a fé no nos milagres, no invisível aos olhos limitados. Em contrapartida o cansaço, o pragmatismo, a razão aos pedaços, o equilíbrio incerto, o curso lento do otimismo, a fragilidade das verdades com sombra de dúvidas. O espanto se dá quando somos compelidos a entender que não somos um só, que além do nosso ego circulam outros projetos. A nossa satisfação está intrinsecamente atrelada a nossa própria realização. 

Em oposição ao homem comedido, econômico nos verbos ergue-se o indivíduo que escreve pelos cotovelos, não vê sentido na ativação de filtros de censura. Não se vê ameaçado nas suas poucas reservas. Entrego aos raros amigos as confidências que extrapolam o peso que consigo suportar. Do mesmo modo, sou todo ouvidos.

Emotivo (principalmente com coisas simples), intenso (com tudo que valha a pena). Continuo cometendo enganos e muitas vezes me equivoco com aparências e fingimentos. Frágil com tudo que se refere ao meu filho. Firme quando insultam ou subestimam minha inteligência.

Exerço a indiferença quando necessário, sou frio e calculista por mecanismo de sobrevivência. Por instinto pratico o egoísmo e o desprezo. Desconfio que o ódio não tenha conquistado a minha adesão por decisão. Embora saiba que ele se mantém recostado à porta, esperando por um sinal. Venero com igual entusiasmo idosos e crianças. Ambos possuem a sutileza da vida, o contraste entre nascimento e a eternidade em forma de sabedoria.

Não sou amargo nem alimento recalques pelas ilusões desfeitas. Novos enganos serão cometidos, diferentes práticas serão implantadas, antigas serão resgatadas e sigo assim...

Às vezes mais, às vezes menos... Um eterno contraste.

                                            



















quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O mito da inocência


 Em Caraguatatuba vivi uma situação curiosa. Acompanhado de um casal de amigos (que hoje estão casados e com filho). Aproveitei de um final de semana incrível. Muito sol, algumas latas de cerveja, ondas tranquilas e romances disputavam cada palmo de areia. De aliança recente, aproveitava todas as delícias do começo (período em que transformamos o sexo em vício e descobrimos que metade de nós é tesão). As brigas não existiam e estarmos juntos era a única prioridade. As imperfeições de tão sedutoras tornavam-se perfeitas. As deformidades formavam uma névoa que impedia a percepção e encobria o que a paixão ofuscava. Sem perceber banalizamos os sentimentos. Fizemos delas um escudo contra o que poderia ocorrer. Todos os defeitos foram ignorados, todos os hábitos trivializados, todos os impedimentos foram estimulados ao limite da transgressão.  

Tínhamos como companhia uma família metódica, sistemática e cheia de convenções. Às noites, éramos separados para provavelmente evitar que as chamas atingissem os ouvidos do pudor enrubescido das tradições. Tinham uma garotinha de quatorze anos que ajudava a manter a gigantesca casa em ordem. Sem nenhuma noção das “câmeras ligadas”, não percebíamos que estávamos sendo seguidos. Nalgum momento que não consegui reconhecer fomos identificados por radares indiscretos. Pergunto-me em que momento específico se desencadeara a fantasia. Aquela garota aparentemente ingênua havia incorporado ao seu corpo ainda em formação a obsessão pelo alheio. Deixara suas fantasias criativas aflorarem sobre seus pelos em crescimento, sobre os sonhos molhados, acerca da carne macia e intacta dos seus segredos. Sobre os versos rascunhados de amores impossíveis, sobre poesias de pulsos cortados, relativos a morte de amores corrompidos, não correspondidos.

Ao despedirmo-nos, numa atitude despretensiosa e sem malícia, forneci-lhe meu cartão em resposta ao seu "sutil" pedido de contato.

Uma semana depois fomos surpreendidos com uma carta detalhando momentos de um amor inexistente. Com requintes de realidade relatava momentos construídos por sua mente sonâmbula. Boquiaberto, fiz um retrocesso de possíveis aberturas a interpretações na direção de entendimentos equivocados. Nada encontrei. Não lembro sequer a cor dos seus olhos, os detalhes das suas pernas ou a forma dos seus quadris. Obviamente todas as explicações foram inúteis. Nem os melhores argumentos seriam capazes de desfazer uma estória tão minuciosamente elaborada. O primeiro desentendimento aconteceu e depois dele nunca mais conseguimos reconstituir o que imaginávamos ser eterno. Cheguei ao extremo de me imaginar culpado. Talvez eu pudesse tentar localizá-la ou tentar consertar o engano. Tarde demais! Meus vinte e dois anos foram ludibriados por quatorze. Indignado, nunca consegui provar a imaterialidade da denúncia.

E eu pensando que fosse esperto.

                                              












quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Surge a religião...


Não deveria penetrar num terreno tão perigoso e pessoal quanto a espiritualidade. Impossível dominar a curiosidade que também me consome. Acima de qualquer apreensão está o fascínio que a humanidade preconiza para alcançar o conhecimento presumido acerca de Deus e seus desígnios. Tive como formação uma doutrina católica fundamentada por meus pais, fiéis seguidores de uma imagem distorcida da que construí. Ao invés da figura ariana criada para acompanhar a barbárie de Hitler – tentativa estúpida de selecionar uma raça supostamente superior, a substituo por um descendente africano ou uma doce mulher. Nas minhas perspectivas Deus não possui face. Suas características fogem do portfólio dos feitos, dos padrões hermeticamente manipulados para confundir. Tem o poder de me usar em meu próprio benefício. Ensina-me como praticar o desprendimento dentre tantos apegos inúteis. Contrariando as preces formais, as formulo em diálogo puro e transparente. Creio absurdamente na linguagem coloquial, sem manejos ou manobras. Um dialeto simples, sem palavras, onde o silêncio e os pensamentos traduzam todas as angústias e inquietações. O contato acontece numa força que me circunda e não desgruda de mim. Ganhar dificuldades e obstáculos significam testes de superação. Interpreto essa presença poderosa que se ocupa de mim, em fenômenos ocasionais tão intrigantes quanto misteriosos. Refiro-me a milagres que jamais serão catalogados, os isolei por ainda não compreender os meandros do solo que piso, ou que sobrevoo. Arrisco-me a acrescentar: planando por territórios estrangeiros,  escavando domínios guardados por sentinelas protetores em esferas incompreensíveis.

Pesquisas relatam a prática de rituais religiosos entre os nossos primeiros ancestrais. Provavelmente os neandertais nos ensinaram a buscar respostas ao inexplicável. A morte reina absoluta como indício de todas as buscas (em epígrafe: vida após a morte).

Avaliando comportamentos extremos e ortodoxos concluo que além das seitas, fanatismo, sacrifícios do corpo, autoflagelamento, rituais africanos como o vodu, se apresente a incerteza atormentadora suprema que arrastamos: Eternidade. Como alento aos inúmeros questionamentos ergue-se o apocalipse e a culpa como ferramentas de controle. Criamos mecanismos de defesa para a nossa fragilidade. Resumindo, somos idiotas em busca de revelações para provar a nossa inimputabilidade. As punições são nossas. Escolhemos a pena e de que forma as cumpriremos.

Pais católicos embutiram em mim todos os rituais do catolicismo. Primeira comunhão, crisma, e hóstias consagradas. O corpo de cristo resumido em farinha de trigo e água é muito pouco para a dimensão do salvador. Não sou herege ou ateu, apenas acho amadorismo o uso de meras simbologias para exercer a fé. Talvez pela necessidade conclusiva do pragmatismo minha concepção do divino seja egoisticamente cravada no meu umbigo.   

Não tenho (mesmo) idéia do que serão feitos meus átomos. Talvez sejam macerados ou convertidos em minúsculas partículas e, uma vez pó, o vento fará o transporte para o encontro com o altíssimo. 

E  a vida segue... Sigo junto sem dar folga.     

                                                         

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Nem sempre


Vias de regra as coisas nunca se configuram com base nas nossas primeiras impressões ou princípios (em formação). Ao longo da nossa vida vamos adaptando nossos limites, expandindo nossos escrúpulos. Com exceção daqueles definidos como imutáveis, muitos outros serão flexionados. As verdades consideradas definitivas sofrerão abalos, as crenças (crianças) crescerão e conquistarão autonomia. Nem sempre sou bom ou razoável. Também exerço a maldade e a loucura. Às vezes sou intransigente, arrogante e insuportavelmente caprichoso. Embora saiba reconhecer que aquilo que via era uma farsa disfarçada de vaidade, uma fuga oculta na busca incessante de ser mentira. Nem sempre acordo de acordo com o bom humor e nem priorizando a vontade de agradar. Esse compromisso em ser agradável alcança muitas vezes a indiferença. Esses traços de vilania compõem até o mais próximo da santidade. Não me joguem na fogueira!

Mudar de opinião, rever conceitos, modificar antigas estruturas, reformar verdades que fatalmente se transformarão em mentiras significa renascer, trocar a pele, o pelo, o peso, as histórias. Quando me vejo repetido em tantos enganos, tantos arrependimentos frutos de atitudes amadoras, suspiro e continuo respirando. Consequentemente cometendo outros erros e rindo dos anteriores. As falhas nem sempre são fendas fechadas. As tais lacunas entreabertas possuem brechas para negociações: Dependem de nós.

Ouvi outro dia a inacreditável história de uma mãe obsessivamente ligada ao filho sexualmente. Não posso duvidar, já que me foi apresentado provas irrefutáveis. Fico imaginando a simplicidade das minhas fantasias, do quanto sou normal em contraponto às emoções que não conheço.  Como pai, não consigo sequer supor o toque no contexto íntimo do incesto. A dubiedade entre aversão, repulsa e desejos secretos não me credencia ao conforto da sentença. Eximo-me dos julgamentos, pois o meu conhecimento ínfimo dos méritos me desobriga ao júri da questão.

Nem sempre velhos de cabelos grisalhos significam cansaço, rugas e desgaste. Podem ser revertidos em charme. Revestidos de sabedoria e segurança. Estereótipos de qualquer natureza são perigosos, vistos que nem sempre se materializam. Correspondem apenas às manifestações arbitrárias e fomentam o fermento nocivo da difamação.

Busco-me tentando saber de mim. Suspense: ou estamos em diferentes estágios ou nem sempre sou eu.

                                                                 
                                                                   







quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Estratégia


Ando um pouco cansado do aparato estratégico para fugir do convencional. Tem horas que a disposição para repetir o trajeto da conquista desgasta até o mais impreterível atleta de alcova. O truque para camuflar o bico dos seios com um band-aid não funciona mais. A intumescência pode ser disfarçada e a vulgaridade do corpo que sente pode ser aliviada, ainda assim não poderá surpreender o equilíbrio. As unhas ornamentadas de pele mostram a fúria do ciúme, o desespero do poder relativo. Fui seduzido sim pelo manejo hipnótico do teu cigarro, pelas piruetas feiticeiras que quase me levaram ao transe. Deixei-me amolecer pelo passeio suave das tuas mãos pelas pernas e cotovelos. E os pelos dourados das tuas coxas? E o perfume que corroeu minhas lembranças? E o roçar da tua língua macia nos meus dentes? E a expressão intrigante dos teus olhos sobre meu corpo entregue aos minutos seguintes? E as carícias obscenas dos sussurros aos ouvidos? E todos os desejos inundados pela libido insaciável? O cérebro acionou como estratégia a proteção: Esqueci.

Com a sensibilidade em baixa perdi a rota já estabelecida. Não pude notar as diferenças incorporadas nos teus vaidosos cabelos. Recusei-me a dividir meu tempo tentando entender suas crises, discutir assuntos emperrados, encerrados, enterrados. Em momento egoísta meus espaços afunilaram, se tornaram estreitos e propícios à individualidade. Perdão pela paciência esgotada, por não encontrar nos teus artifícios ardilosos motivos para aderir ao refúgio dos teus subterfúgios. Antes de ser dissolvido na mistura heterogênea das nossas discrepâncias, sou absolvido graças a uma medida cautelar: Inocência.

Com licença... Por não concordar com teus estratagemas, estrategicamente me retiro.