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sábado, 11 de julho de 2015

Recortes do tempo

 

A imponente lareira se exibia confortável em frente da mulher grávida. Com ternura, era-lhe peculiar o doce tom materno que a circundava. Embora os olhos amendoados chispassem às vezes, fagulhas fulminantes de antipatia. Alta, esguia, possessiva, acariciava o ventre volumoso em posição de proteção absoluta. A gestação em fase avançada se aproximava do final. A irritação e a ansiedade disparavam indícios claros da menina dando lugar à mulher. Segura, demonstrava desenvoltura com o peso extra que carregava. Mãos em fricção, pernas excitadas e um vapor condensado era eliminado pelos pulmões encolhidos. Partículas de água em suspensão eram lançadas por espirros. O inverno bravio simulava o gelo dos alpes. As janelas pareciam dançar com a ventania revolta que subitamente se manifestava do lado de fora. Um cachorro felpudo acompanhava freneticamente os passos de Jeff. Ambos brincavam de voltar das caçadas, dos mergulhos nas florestas mais escuras. Fingiam que nada seria modificado com a chegada do primogênito. Esforçavam-se para simular um cotidiano habitual.  Pobre Jeff! Jovem garoto com medo de crescer! Altura mediana, cabelos encaracolados, embrulhado numa malha grossa e um casaco forrado com lã de carneiro, o que lhe emprestava uma aparência bem mais atarracada, dado o enorme volume que a roupa lhe conferia. Sobre os cabelos anelados, uma boina típica dos senhores Portugueses. A gélida brisa que sitiava o imóvel, encobria a história feliz que irrompera sobre qualquer projeto de Sarah e Jeff. Encontraram-se ao acaso, numa situação avessa ao caminho dos apaixonados. Esbarraram-se por coincidências tolas, sem qualquer fato marcante. A não ser pela imediata repulsão que ambos sentiram. Sarah, parecia-lhe a imagem da presunção. Tinha um certo ar de autoridade que não suportava. Jamais toleraria qualquer esboço de arrogância. Como se detivesse todos os direitos adquiridos sobre a verdade. Enquanto Jeff parecia-lhe um ser simplório, sem metas, sem ambições. Definitivamente, estava decretado. Não se envolveriam. Estava fora de cogitação qualquer ilação de possibilidades. Aliás, não acreditavam mesmo nessas baboseiras de coraçõezinhos e suspiros diante do amor à primeira vista. Pareciam-lhe improvável que a atração surgisse assim... Selvagem, sem cheiro, sem pele, sem toque, sem tempo.  Não eram de todo céticos. Embora reticentes, não desdenhavam que algo os surpreendessem. O pragmatismo e  objetividade não lhes congelaram por dentro, nem robotizaram suas emoções.

Estabelece-se a partir daí estranhas conspirações, convergências esquisitas. Que ironia! Tiveram que reconsiderar seus conceitos acerca do destino. Ambos descobriram que existiam pensamentos exaustos que precisavam de um ponto para repousar. Encontraram entre eles as reservas que se buscam para serem completos. Contrapondo-se ao frio do inverno, o calor da nova família bastava.

                            
                               
                            


terça-feira, 16 de junho de 2015

Através do espelho


Um jovem esperto, pele escura e olhos separados por sobrancelhas arqueadas, lembrando as orelhas dos felinos em riste, desconfiadas, cautelosamente à espreita, prenunciando ataques partindo de todas as direções. Cabelos negros e arredios, nariz largo e narinas ávidas por mais oxigênio, pernas extremamente finas e longas; de tão livre, corre sempre contra o vento. As ideias fervilham sobre o sossego. Inspirações, criatividade, energia, arrematam seu desenho. Com desenvoltura, descobre maneiras de vencer o tédio e a monotonia de estar sempre só. Arremessa pedras num lago próximo, escolhidas pelas formas mais compatíveis às suas mãos. Moldar as incompatíveis não é uma tarefa impossível. Diverte-se observando o rumo que tomam as pedras que deslizam na superfície transparente daquele espelho, às vezes azul, outras misturadas de marrom. Embevecido, acompanha o movimento em espiral dos seixos, as ondulações da água que aparentam material plástico, recebendo o choque. 

Tem sonhos. Muitos deles duradouros. Alguns fadados ao impossível. Outros mais palpáveis e concretos. Recursos reduzidos enfraquecem suas ambições. Queria embarcar num avião que risca o céu, deixando rastros de fumaça e ilusões que se dissipam com o vento. Imagina-se rompendo fronteiras desconhecidas, a bordo de um balão nas cores vermelho e laranja. Do alto, supõe cenários fascinantes, panoramas em vários tons, contrapondo-se ao preto e branco da sua rotina.

Além da natureza não tê-lo favorecido com o abre portas da beleza física (atributos cultuados à exaustão) pelos padrões das primeiras impressões, a cor da pele sugeria uma inferioridade que feria, tal uma haste pontiaguda. Seria hipócrita se afirmasse que possuía familiaridade irrestrita com religiões. O mais próximo que chegara, foi quando visitou uma tenda de candomblé, em companhia da sua mãe, que o enchia os ouvidos: “Tem que acreditar em alguma coisa, menino!”. Admite que aquelas pessoas vestidas de branco, o cheiro doce característico das ervas, as danças e o coro que entoavam orações pela cura não o convenceram. Não vou julgá-lo, (nem poderia). Ambos temos dificuldade em compreender os caminhos e desígnios de Deus. 

Enojado das mesmas injustiças, das repetidas carências de oportunidades,  enxerga nos trilhos da via férrea a oportunidade de abreviar parte das suas angústias. O comboio certamente seria impiedoso (exatamente como queria). O cortaria em dois. Antes de qualquer coisa, pensa em deixar como herança um par de sapatos.

Afinal, não precisaria mais dele.

                                     

                             

                    

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

A experiência



Numa viagem das mais intensas, a uma velocidade incalculável desembarco em outra civilização. Não interpreto o solo que piso. Desconheço o material que paira sobre as minhas indagações. Teletransportado em um objeto acolchoado, de formas irregulares e de características luminosas. Selecionado para um estudo estratégico da evolução terráquea e suas extremas ignorâncias. Meu cérebro composto por dois hemisférios iguais, dimensões uniformes, sinapses perfeitamente ordenadas. Nada distingue ou justifica o motivo da escolha. Existem fatores subjetivos que também desconheço. Num movimento lateral desloco o pescoço em direção a um balcão de madeira envelhecida e capturo entre as luzes vibrantes, um calendário com algarismos garrafais destacando o ano de 3010.

Portando um bloco como única munição contra uma probabilidade de memória corrompida, persisto no hábito irritante da anotação. Essa estranha mania de registrar o tempo e vasculhar os cadáveres e seus sintomas. Começo a me interessar por essa viagem insólita. Aos poucos vou compreendendo as veredas desse intrincada missão: Desenvolver diálogos compreensíveis com outras formas de vidas e a continuação das mesmas repetições. Humanos sendo estudados, as diversas facetas de uma mesma moeda. O bem e o mal em mutação, anjos e demônios se sofisticando... Entre nós, esbarram-se na calçada, no elevador, nas escadarias, na sala em frente à TV.

Sentado e restrito a uma cadeira rústica de carvalho, compatível com a modesta decoração do Estabelecimento, anoto, arrolo testemunhas invisíveis para o disparate. Um parágrafo em particular dessas anotações chama a atenção: Alienígenas cada vez mais se aproximam dos nossos costumes. Copiam emoções, aprendem a seduzir. Em segundos assumem aparências, brincam de ganhar. Entre simultâneas tentativas acendo um calmo cigarro, o que me proporciona tempo de sobra para contabilizar quantos miseráveis minutos perdera com o vício. Posiciono-me de forma a alcançar um ângulo confortável sem que os olhos sejam contaminados pelo sol furioso, que invade os cantos do sábio boteco. Através da superfície envidraçada escaneio o ambiente. Enquanto tento distraído, saborear o veneno gasoso que preenche meus pulmões. De um ímpeto sem precedentes, atiro aquele invólucro branco recheado de fumaça negra ao chão. Do lado, uma funcionária me fulmina com um olhar tão tóxico quanto o cigarro lançado ainda queimando aos pés do meu desleixo.

De repente a porta abre-se de par em par, fazendo surgir uma moça de pele branca, esboçando um sorriso insidioso, levemente irônico – Quase imperceptível. Gingando seus quadris entre as mesas, me interpela e definitivamente me convence, sem esforço algum. Começou a cair meu olhar em derrota. Envergonhado pelas intenções vulgares dos instintos que por vezes assumem o comando. As íris palpitavam ante aqueles imensos e profundos olhos verdes. Existem nessa mulher duas identidades escondidas: O anjo, a síntese da pureza, o paradigma do sofrimento calado. Em contrapartida, a presunção do demônio, a que transporta a sepultura dos vulneráveis...

Com a simples desculpa de haver conquistado o que queria, deixa escapar...

Algo mais?
 
Sonolento e ainda desorientado encontro-me finalmente materializado no ano de 2015.


                               

                            














segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Horizonte azul


Uma hora os créditos acabam. Falta paciência até para a tolerância. Fartam-se das mesmas caras, dos mesmos gestos, do mesmo tédio. Permitam-se a essas centelhas de ostensividades. Não se furtem dos direitos legítimos de divergir. Ser agradável sempre às vezes é previsível demais. Contrastando com esse despertar de cara amarrada, sisuda, acompanha irônica e livre uma massa azulada, se oferecendo inteira aos nossos limitados limites. Tão distante, tão inalcançável, tão exuberante nas suas aparições através dos milênios. Ressurge dia após dia majestoso, contrariando a acepção da palavra imutável. Anos a fio, embrulhado no mesmo uniforme. Renasce sempre otimista em zombaria aos insatisfeitos.

Eis que surge intrometido o final da tarde, vestindo confortavelmente um pijama. Além da contemplação das vívidas cores, oferece também a probabilidade vespertina dos bocejos de indiferença. O entardecer e a aproximação da noite tentam roubar a cena e estragar o espetáculo com tonalidades alaranjadas. Manchando a faixa ininterrupta de anil e buscando enfraquecer os contornos seguros e firmes da eternidade.

Interstícios, intervalos, dúvidas, competição acirrada no pódio. A natureza também produz batalha de egos. Nessa guerra não há vencedores. A disputa não se baseia no jogo de poder. Ambos se procuram, se complementam. Todos juntos, protagonistas e espectadores observamos e usufruímos dos privilégios das 24 horas.

Esse portal, aparentemente inviolável, além da função irrefutável da estética reivindica seu status de referência. Em especial aos que desconfiam da expressão: Ver para crer.


                     

                             


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Sem dramas!


A tempestade deu uma trégua; ainda que momentânea... Assim funciona a desconfiança: Entre a pacífica segurança e os rompantes transtornados das suspeitas. Empilhados sobre lágrimas, as vítimas, as tragédias e a autocomiseração. Alegando depressão apela para o golpe baixo da chantagem emocional. Existem nesses eventos de isolamento, um certo nível de baixa autoestima, associado a uma necessidade de autoafirmação. É preciso chamar atenção. Fazer-se presente. Deprimente amar uma vítima negativa e artificialmente fragilizada.

Mulheres extremamente possessivas e ciumentas geralmente se doam em pelo menos 5% e cobram nada menos que 100%. Essa desproporcionalidade se reflete na fuga e completo desinteresse. Não é pela busca do veludo de outras peles. A monocromia exaustiva das crises é que estimulam a dicotomia de outras possibilidades. Busca-se acréscimos, aditivos, complementos.

Enganam-se as que assumem essa postura de sempre buscar a parte que falta. O ser humano, na sua perfeição é inteiro. A sensação de voo desajeitado, de ninho inacabado é apenas parte de um capricho criado para dividir com o outro a responsabilidade de ser feliz. A vida é muito maior que essas faíscas de dúvidas. Concordo que não fomos criados para viver em clausura. Precisamos compartilhar abraços, confiança, espaços. Nosso fôlego expande-se a outros ares que ultrapassam essa bolha escura onde não se avista um palmo além das obstinações. Ou do nariz.

Nos joelhos, as feridas diante do amor irracionalmente aprisionado. Pulsos marcados pela dor e desespero, diante da simples possibilidade de não mais possuir. O egoísmo de conservar a qualquer preço o controle. Manter entre as mãos o objeto da obsessão. A possessividade leva às suspeitas e a perda de si mesmo.

Ninguém está imune a olhar para o lado... E nesse olhar furtivo, corre-se o risco de enxergar-se capaz de ver o que não via.

                      

                             

                             

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Faz de conta


No plenário, o discurso efusivo do convencimento. No alto da plataforma vê-se sapatos espelhados e a sedução em forma de oração. Murmúrios escapam sorrateiros buscando companhia. Falam eloquentes e articulados as gravatas o os ternos bem cortados. Palavras de mercúrio e neon atravessam as paredes transparentes da persuasão. As meias palavras, os meios-termos, os subtextos são manobrados e bordados em outra configuração: Há nesse templo uma mentira de beleza absoluta aos que sempre sonharam um dia serem lindos e perfeitos.

A grande massa embevecida, absorta, mandíbulas contraídas e o desejo frenético de acreditar no que não pode ser. As pessoas se apoiam na covardia do impossível para se manterem prostradas na prerrogativa do impraticável. Afinal, comodismo e resignação ajudam a explicar a paciência. Ignoram o debate negociado das dúvidas para justificar seus pretensos estágios de superioridade.

Um amontoado de opiniões, distribuídas ao longo de incontáveis poltronas vermelhas, fincadas no piso de madeira riscado por tantos sapatos e verdades distintas. Ressoam internamente novos conceitos do amor, boas intenções e ilusões prolongadas nas decepções. Protesto: O amor ilimitado só existe associado a outros interesses. As boas intenções (aquelas puras e espontâneas) são uma farsa; apenas disfarçam um duelo sutil entre a admiração, a conquista e o medo de perder.

Como um explosivo de pavio curto, não dispenso nem desperdiço tempo na espera das ilusões serem detonadas. Esses doces enganos que exímios defensores protegem aos berros, só examinam brechas para serem cometidos de novo.

Sim, faz de conta que eu acredito.

                             

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Castelo de areia


Séculos atrás, um casal da nobreza foi sitiado num castelo e exposto à maldição do tempo. Transitam nos aposentos seus espectros cinzentos, sem alma, pela cova profunda das incongruências. Errantes, navegam desnorteados sem uma bússola de orientação. Sem herdeiros ou testemunhas não têm com quem compartilharem seus argumentos. Entre moedas de ouro e um brasão arrogante destilam com pompa e circunstância as tradições, que agora nada valem. Vivem há séculos numa rotina de pausa. A imortalidade faz parte da pena. Congelados, semblantes impassíveis. O tempo parado. Nenhuma transformação à vista, nenhum desgaste dos dias.

Pontualmente às 12:07h., o relógio foi travado. À partir dali nada se move. Nenhum espécime se modifica ou muda de lugar. Enquanto aparatos tecnológicos deveriam disparar nos arredores, só galhos secos e solo trincado pelo sol compõem aquela paisagem. Sem contratempos, todas as circunstâncias são previstas. Com a ausência da imperfeição, o tempo se mostra apenas como coadjuvante.   

Entre talheres de prata, louças de porcelana, cálices de cristal, candelabros de bronze, lençóis de seda, resiste a “eficácia” de operários robotizados. Falta entre as paredes frias, as sensações de finitude. As possibilidades de nascer e as definições de morrer. A simples ideia de ruptura do ciclo da vida, balança as estruturas frágeis desse suntuoso castelo, habitado por duas figuras de cera.

Bom seria se nessa quietude tediosa, se infiltrasse um ponteiro rebelde, que desafiasse essa pasmaceira linear. Uma mínima vibração que indiciasse pelo menos o resgate da culpa e das tão necessárias incertezas. 

                                                            
                                    
                                     

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Hipocrisia velada


À cabeceira da mesa, um homem compenetrado nas notícias de um jornal sujo de sangue e ameaçado sob a violenta calibragem da segurança. Sob os óculos quase míopes, a barba desbotada e alguns fios cinzentos a tingir um cavanhaque rigorosamente desenhado pela navalha do capitalismo. Emoldurando a ossatura pouco desenvolvida, o sorriso facetado pela abundância da escassez. Desponta presunçosa, entre uma fileira de botões sufocados a silhueta proeminente de uma barriguinha ainda com ares recatados. Com um simples gole de pressa, parte em busca de mais um resgate nas suas finanças.

Ziguezagueando ofegante, uma mulher aflita, funcionalmente consumida entre pães, manteiga e o amante que acabara de manter sob sigilo momentos atrás. Enquanto seu tédio enfiado na medíocre religião da rotina sofre abalos, filhos vorazes disputam às tapas a atenção. Na tentativa desesperada de convencer as aparências permanecerem entre eles, faz de conta que é feliz e que a normalidade convive no mamão e iogurte com granola.

Uma garota manchada de batom e maquiagem pesada, mexe insistentemente nas mensagens de um potente celular de última geração. Patrocinada aos exageros de grifes, ostenta aos quatro cantos da mesa suas inúteis futilidades. Astuta, ares de profunda inocência. Beneficia-se do seu corpo supostamente intacto, para seduzir incautos e vazios consumidores de si mesmos. Não é pelo dinheiro que entrega o corpo, mas por um desejo estranho de poder. Pela satisfação esquisita de ver a submissão ajoelhar-se aos seus pés.

Um adolescente solitário, ríspido, ácido, interpõe-se entre a carência e a inteligência que pulsa. Ao invés dos jogos inocentes no vídeo game, traça estratégias de guerra, arquiteta ações quase terroristas. Brinca com fogo e faz-se refém. Invariavelmente, perde o apetite diante daquele cenário falso, montado, ridículo, onde a ausência de diálogo ocupa um espaço de destaque na mesa. Se afasta truculento e busca refúgio no seu isolamento real. Reencontra-se com pensamentos suicidas e todas as angústias representadas num simples café da manhã.

                                                             



quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Linhas simétricas


A cena seguinte seria numa casa de vidro, rodeada por imensos pinheiros, aclimatada pelos sopros do sol, refletida por vastos personagens. Amplos em virtudes e deformidades. Alguns deles hiperativos e canhotos. Sem contar os rebeldes assimétricos, fora do padrão... Gorduchos, tatuados, cabelos coloridos, fumantes, adeptos do sedentarismo, contestadores, desafiadores do sistema. Entre “os desertores”, os esteticamente irretocáveis, as linhas perfeitas e as formas em harmonia. Juntos, dão forma à democracia. Não andam em círculos porque têm objetivos. As metas propostas são incompatíveis com a perda de tempo. Alinhados aos fundamentos da beleza, protagonizam o espetáculo em formas geométricas.   

Sejam retas e decididas, ovais e flexíveis, arredondadas e atraentes, imperfeitas e naturais, côncavas e convexas, sinuosas e sedutoras, pontilhadas de intervalos e interrupções...

Ainda assim, poderão ser simétricas.

                                            
                                                           

     


    

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Tudo off


À minha porta ergue-se do nada uma lojinha de souvenirs com valores tentadores. Entro e vasculho coisas de diferentes tamanhos, cores variadas. Em súbita aterrissagem ao solo firme da racionalidade, percebo que estou cedendo aos apelos do consumo. Imbecilmente, seduzido por coisinhas frágeis, de plástico, e sinceramente sem utilidade. Mulheres se acotovelando, carregadas de sacolas e o cartão estourando na carteira. Um sorriso obsessivo de satisfação se enfia na estratégia do comércio fácil.

Com os preços hiperinflacionados dos bens duráveis, ao invés de um veículo ou apartamento, melhor investir à preço de banana na compra de um corpo. Na vitrine dispõem-se a satisfação instantânea. De brinde, ganha-se a falsa impressão da performance invejável. Em tempos de banalizações, comercializar emoções é um mero detalhe. Vaidade inflada por quase nada.

As informações, pode-se manipulá-las, montá-las, entregá-las à especulação, torná-las rentáveis sob a visão de um mercenário. Espiões à espreita, ouvidos colados à porta prontos a disseminarem suas versões. Sons vigorosos são alardeados ao microfone em praça pública, conclamando a conivência em liquidação da oferta e procura. “Quem dá mais” reina supremo nesse leilão controverso da superficialidade.

Por motivos fúteis mata-se, rouba-se, pratica-se corrupção e às gargalhadas tripudia-se da impunidade. 

Às avessas, ironicamente tudo é negociável.


                                                                

     


    

domingo, 18 de janeiro de 2015

Dissecando detalhes


E então, sobressaltada com os pesadelos que avançara sobre os sentidos, desperta e passa o restante do dia recordando os detalhes.

Lembra vagamente de uma chuva tamborilando contra o teto, o céu negro em veludo preto e as vidraças rabiscadas em água ainda moderada. Embalada à vácuo, deitada e afogada numa poça de cabelos, um animal ferido, tentando romper as barreiras intransponíveis das metáforas.

Perdida numa floresta negra, entre árvores densas presencia uma clareira aberta pelo fogo, que a carbonizara num raio indefinido. A nuvem de chumbo da fumaça turvam as circunstâncias. Castiga os pulmões, querendo derretê-los. Em asfixia, se debate em busca de ar.
Sob os pés, a textura das pegadas de cinzas. Os troncos fumegantes exalando junto de uma fumaça indiscreta, um emaranhado na consciência.

 Se aproxima um homem de fisionomia esgotada, sorriso predador, olhos fulminantes e intimidadores. Lábios largos e incompatíveis às formas da boca. Cabelos confusos, desgrenhados, assimetricamente distribuídos. Uma cicatriz evidente no braço esquerdo, resultado de um corte antigo nas suas funções de lavrador. As linhas delineando e mapeando os traços do seu rosto, estabelecendo nos sulcos da face e na vulnerabilidade dos seus olhos o desenho da sua idade.

Recorda dos olhos traçando as paredes, calculando cada imperfeição da pintura, dos reflexos de uma luz que quase morre nos cantos do  quarto, dos solavancos da memória que aterrissam nos seus lençóis.

Intrigada, é assediada constantemente na sensação de não ter dormido.

Ao final só os detalhes sobreviverão.


                                                           

     


    

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Linha do tempo


 Após um suspiro, deixam escapar num quase lamento... “Ah... No meu tempo!".

Ora, qual o tempo referido?

Em represália a essa prece retrógrada, apresento meu argumento: Razoavelmente pondero: Não existe esse tempo requerido. O tempo passado pode servir apenas para amparar as saudades. Se ele trouxe a tristeza das perdas em vários segmentos, paradoxalmente ele concedeu credenciais para não voltar. O tempo presente é o agora. Mesmo sob o jugo da morte, ainda assim restaria o álibi do tempo, que embora não permita interrupção, guarda uma brecha onde pode-se trabalhar para mudar o destino da história. Esses conceitos reacionários surgem a partir de uma incompetência em conviver com o inexorável. Não se pode escapar ileso das transformações. Não se atravessa incólume às mutações impostas na cadência das horas. Há que se compreender a implacabilidade das rugas e o ônus das peças desgastadas. Mesmo que seja reinventando-se em outras possibilidades, em novas medidas e outras melancolias. Esse modelo antigo de busca às reminiscências só se sustenta com a adesão de voluntários à uma causa que o giro do relógio já proferiu a sentença.

Vamos ser atemporais! Acatar com dignidade o peso do relógio. Combater a nostalgia do que não se pode recuperar. Rasgar estatutos. Promover adendos no contrato previamente sancionado, incorporar dispositivos que ressalvem o direito de rever.

Chegará o dia em que finalmente ouvirei: “Imaginou se fosse no meu tempo?”.


                                             
          

     


    

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Além do mar...


Esse cheiro incontestável que faz as asas abrirem, infla pulmões, esvoaça os cabelos e assenta o desejo de partir.

Esse breve intervalo entre a serra e a revoada de gaivotas tremulando ao balanço do vento.

Esse insondável mistério das marés incansáveis, investigando as rochas, penetrando as rachaduras das pedras, insinuando-se em ondas sua sensualidade que só é interrompida na areia da praia. Nos avanços e recuos intermitentes impõe suas ingênuas intenções.

Essas nuvens elásticas se moldando a todo instante em leves figuras, brincando saltitantes de esconde-esconde, fundindo-se às outras sem cerimônia. Capuchos soltos no ar, se divertindo na criação de formas indecifráveis.

Esse sorriso narcisista, escondendo sua metade selvagem, sua parte sarcástica. Essa mistura de sal e água de coco que recobre a pele tostada e o transpirar da liberdade.

Essa tela que rasga os padrões de tudo já foi visto antes, que separa o dia da noite com simples pinceladas de perfeição.

Esse sol esbanjado na palma da mão, no topo das idéias, mesclando de cores o oceano entre safiras azuis, amarelos dourados e verdes esmeraldas. Protegido pelas paredes do oceano, só os grãos insolúveis de sal e do tempo que não pode esperar.

Esses coqueiros inclinados sobre as águas que parecem suplicar por matar a sede. O cheiro de maresia, sabores gelados, pombos que vagueiam incansáveis revirando a areia e a curiosidade.

Essa navalha contra o ego, que sem esforço habita o imaginário coletivo de quem espicha os olhos além do horizonte. 

Entre goles, conchas e pranchas me reconheço num caiçara.


                                                       
                                                                 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Simples assim...


 Ao longe, avisto um pequeno ponto luz, vindo de uma humilde choupana. No seu interior encontra-se um casal aproximando-se dos 90 anos. Ao som da fricção das asas dos grilos e algumas cigarras a ostentar seu potencial vocal. Ela, traja um vestido de linho com um avental por cima. Nos pés, chinelos com detalhes em crochê, improvisados com suas habilidades manuais. Carrega sobre os olhos pequenos e cinzas, um óculos de formas arredondadas. Ornamenta seu dedo franzino, com uma grossa aliança de ouro maciço, simbolizando a fidelidade que sustentará até o último suspiro. Ele, sobre os cabelos prateados, conduz um chapéu de feltro surrado, manchado de suor. Porta entre os dedos um cigarro de palha já um tanto amassado. Entre eles, a celebração permanente de todas as noites. Antes do sono, o ritual de todas as confidências, de todos os escrúpulos. Sem uma única palavra. Só o reencontro dos olhares, a certeza de ambos se vasculhando entre a fumaça que lambe a cozinha e o gato companheiro a ronronar suas reivindicações.

Travam um longo e íntimo diálogo. Não há palavras. Não precisam. Existe tal sincronicidade no amor construído pelo tempo, que o silêncio basta. Mais de meio século de convivência permitem que identifiquem o humor pelo ritmo dos passos, pelo maneio da cabeça ou pelos simples estalos provocados pela língua. O estreitamento dos laços define-se até nos movimentos de segurar a xícara de café, nos abanos familiares da expulsão de moscas intrusas, esfomeadas e exigindo o suposto direito adquirido das migalhas renegadas ao exílio dos supérfluos. As mãos, outrora firmes, agora frágeis admitem certo cansaço. Resignadas, manipulam o amor que (legitimamente) tomaram posse.

São acompanhados por um fogão à lenha, com algumas toras de madeira crepitando, queimando qualquer indício de negociata. A experiência por si só, domina as veredas e atalhos da intimidade. Compreende cada nova dobradura da pele, cada vinco audacioso e desconhecido que surge no pescoço.

Do lado de fora, cai uma neblina gelada e teimosa. Sabe a proporção do incômodo que causa, e por pirraça não prevê desistência. Gregária, cerca-se de outras gotas determinadas para promoverem o espetáculo da chuva.

Contrariando o falso conceito da opulência retratado por corações abarrotados de paixões efêmeras, a beleza do simples pode ser encerrada entre as paredes de um casebre, onde reina verdadeiramente os sentimentos mais nobres.

                                                       

     

sábado, 3 de janeiro de 2015

À galope


Um garoto no limite da adolescência, no auge dos seus ímpetos, vê sua imagem refletida no fundo de um precipício. Lança-se sem receio num mergulho tentando apaziguar a rebeldia. Seus ossos em distensão junto das emoções em desalinho. Sentado sobre os calcanhares, acompanha o vento que empurra grotescamente as cortinas da normalidade. Por um fio de abertura, enxerga a verdade tomar forma.

Vê o mundo passeando por longas e previsíveis estradas. Sente um forte cheiro de náuseas. A vertigem transita na sua transformação. Assedia seus esconderijos que guardam seus álibis e que queimam ao sol. Em duelo ininterrupto com o sono, recusa-se à submissão do absoluto.

Era a própria figura do jovem embrulhado no papel tênue da aventura. Esquecido entre outros gemidos, contas a pagar, soluços e defeitos, esforços e loucuras, do tempo incompreendido de velhas e ultrapassadas memórias, verticalizadas nas melancolias de histórias que nunca foram escritas. Percebe o amor em frangalhos que inutilmente cultuam. Sobram unicamente as marcas que permanecem na pele, simbolizadas em caveiras esculpidas no peito e as cicatrizes de erupções escavadas na face adolescente.

O nariz arrebitado presumido na sua importância de superpoderes. A certeza de uma morte ausente ou distante da sua pressa legítima. Nenhuma barreira conterá a força dos seus dedos num gesto escrachado e obsceno.

Finalmente o homem recém transportado dos hormônios em fúria, bisbilhotando os detalhes da sua biologia.

                                                             

     

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Promessas


Do pacto de amor firmado às derrapadas imperdoáveis das violações.

Os livros que fiquei de ler, as viagens que não fiz, os vínculos que devo estabelecer, as habilidades que preciso aperfeiçoar, os equívocos que buscarei reparação.

O tédio das repetições, as armadilhas da venda que tapa os olhos, as mentiras e omissões, as ilusórias obediências. Confissões, conveniências, influências.

O sangue escoado das promessas não cumpridas, as palavras gastas pela raiva, o fogo das munições disparado no ponto vulnerável das fragilidades.

Os juramentos na corda bamba, contorcendo-se para se ajustarem à verdade. Àquelas prioridades organizadas numa agenda agrupam-se à esperteza dos desejos afoitos. Fatalmente, os apelos instantâneos serão atendidos sem atraso.

O barco ancorado no cais de todas as esperas, está presa apenas por uma corda frágil, que a qualquer momento poderá ser rompida.

Baixam-se as armas, erguem-se outras defesas, novos escudos. Diminui o fôlego, nasce o silêncio. 

E ano a ano as promessas continuam...

                                                              
                                  

     

     



     

     




                                                            

domingo, 28 de dezembro de 2014

O poder da renúncia


As oportunidades podem ser representadas como uma linha reta, com limite de velocidade e regras de ultrapassagem. De tão longas não permitem a visão do ponto de chegada. Tornam-se enfadonhas e entediantes para os resultados imediatos. Tudo aquilo que envolve espera e paciência, vemos com com certa resistência. O tempo de maturação é geralmente incompatível com as impetuosidades da pressa. 

 Tendemos a aderir aos desvios. No primeiro retorno dispõem-se alternativas que sugerem um trajeto mais divertido, mais lucrativo, menos austero e mais rápido. A simples ideia de transgredir já alimenta a fome do alcance. As sinuosidades e surpresas da estrada se aproximam do espírito de aventura. Nenhuma oportunidade condicionada ao longo prazo merece melhor avaliação por uma sociedade imediatista. Nada melhor que os atalhos para atenuar as supostas delongas.  

O assédio de novas possibilidades se projeta com argumentos suficientes para a mudança de rota. Dizer sim, nem sempre é avançar. Discordar, nem sempre é regredir.

                                                                        

     

     


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Imóvel


Envolvido naquele abraço prolongado, onde o calor e o abrigo procuravam encaixe. Estendemos aquele instante como se a apresentação fosse o início da despedida. Olhos fechados, vasos dilatados. Pernas paralisadas, a paixão se exibindo. De fundo, só o barulho das esquinas, o ruído das buzinas e a conspiração dos ecos constrangedores do silêncio. Algo acontecia dentro de nós.

Os longos cabelos encaracolados, os olhos castanhos enigmáticos, o corpo perfeito para a medida dos meus braços. Abraçada a um violão, falou a multidão do amor sufocado, dos furtivos momentos da paixão exagerada. Encantou com seus acordes o entusiasmo dos meus ouvidos.

A cortina de poeira começou a assentar quando surgiu a presença de alguém que já ocupava o espaço que pleiteava. O Amor inesperado revelou-se proibido à medida que outro personagem já encabeçava a função de protagonista. Aquele abraço eternizado no sonho, tornou-se clandestino quando descobri que estava patenteado.

Em carne viva, vi minhas ilusões sangrando sob a visão de um amor impossível. Atravessar e me entranhar num espaço em branco poderia representar apenas um capricho. Seria estupidez fomentar uma disputa baseada apenas nas minhas extravagâncias.

Vagueando em mim, encontrei a propensão de amar o que não tinha, de ambicionar a excelência que não me pertencia. O que me excitava era embaralhar o jogo, me infiltrar como elemento novo, quebrar o tédio que transformaram em bagaço.

Tenho adormecido protegido ao sabor daquele abraço.

                                                   

     


terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Nunca esqueci...


De uma velha senhora que driblava o frio da rua e os perigos de moleques larápios que ameaçavam surrupiar seus pertences se amarrando com sacos plásticos. Esse improviso dificultava qualquer infrator de se aproximar e de tocar nos seus valores, sem serem denunciados através do barulho. Aquela espécie de alarme plástico, criativamente adotada por ela era mais que um artifício de segurança. Representava sobretudo, sobrevivência.

Costumava frequentar uma esquina das ruas importantes de São Paulo. Voltando do trabalho fui despertado por um radinho de pilhas com um som destoante do silêncio dispensado no avançado das horas. Cautelosamente e curiosamente me aproximei... A partir de palavras engraçadas e leves, desenvolvemos um vínculo indestrutível.

Aos poucos, construímos uma relação de confiança. Notei traços de uma bonita senhora no passado. A respiração ofegante e algumas marcas na pele indicava uma possível saúde debilitada. Apesar de não abordarmos aspectos pessoais de intimidades, envolvendo família, o pacto entre nós foi se tornando cada vez mais firme. Talvez por medo de que ela repentinamente se afastasse, respeitei o espaço delimitado nas entrelinhas da estranha simetria.

Um dia, surpreso, não mais ouvi o som do rádio tão familiar. Meu olhar circulou todas as direções em busca de resgatar o motivo da minha alegria diária. Aqueles encontros, mesmo que breves, me faziam melhor. Inexplicavelmente maior. Flagrei-a no outro lado da rua, subindo num ônibus, transportando nos ombros seus cacarecos e seu invento de plástico. E pensar que naquele invólucro, carregava sua vida. Como somos tolos! Sempre angariando títulos, que nos atribua poder, ambicionando materialidades desnecessárias! Encerrava-se ali nossa ligação. Um certo vazio se abateu sobre mim. Acabara de sofrer uma perda. Ficara órfão, mas certamente, nunca mais me sentiria sozinho.

Nunca mais a vi. 

                                                                 


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Preço do passado


Idas e vindas, encontros e despedidas. O amor que não tive ou provavelmente não enxerguei. Ocupei-me demais na busca da perfeição inalcançável. Esqueci-me que fui feito com a possibilidade dos equívocos, com outras alternativas além do que não conheço em mim. Por um momento fui ludibriado pelo que a curvatura dos teus lábios deixaram escorregar. Um cérebro puro deixou-se manipular contagiando cada minúscula célula só para compreender como o amor se move. Por um fio não fomos tragados pelo passado implacável e quase matamos o presente que se arrasta conosco. Descobri  espaços em nós que só o tempo poderá ocupar. Ando ferido demais para apostar em aventuras, cansei de equilibrar meus desejos num pires. Preciso de volume, busco profundidade.

Aqueles beijos roubados desordenadamente na volúpia felina foram necessários à percepção do quanto estamos condicionados às reações físicas. Nesse terminal de dados repetidos faltava a comunicação dos abraços. Faltava esticar os braços na direção dos campos floridos como um rio entregando a tocha para  a imensidão do oceano, Faltava despirmo-nos de sonhos antigos e  adormecer ao som da eternidade dos amantes. Sem perceber, em ti tropeçava. O passado irônico tentou pousar a vergonha do fracasso nos meus ombros. Sonhos maiores bloquearam a inflação. Se o passado apresenta um preço, o futuro garante o recomeço.

A cama antiga e desengonçada no contratempo do prazer cego, que um dia comportou o imediato dos fluídos naturais, ganhou contornos sensoriais verificados no toque do hoje. Quero a luz que penetra a fachada das nuvens, a coragem e desembaraço dos lírios que enroscam-se nos troncos. Quero exterminar os insetos exuberantes que sobrevoam meu sono. Quero colocar alma e emoção nesse boneco curvado sobre uma alegria forjada. Quero ocupar espaços, apresentar meu tamanho.

Adormeço com o sono a pedir mais sonhos. Posso até sonhar, desde que outro sonho. 


     


sábado, 28 de julho de 2012

A cruz e a espada


Por um tapete alvo de areia sigo sozinho por opção. Flagrei-me depois de solteiro excessivamente inconstante e introspectivo para ser compreendido com a leveza que acredito e busco. Persigo a passos solitários eternas lembranças de oásis e abismos. O sol que incandesce as nuvens emaranhadas e frias como gravuras de gelo, queima aos poucos minha sombra. Deixo-me dobrar, agacho-me sobre a tela imaginária de areia e rabisco trechos da história que não foi minha, foi nossa. O vento varre calçadas, ilusões, conchas e gaivotas. Lá do alto, sopra os embaraços das ondas, espalha a espuma das bocas famintas (fusão ofegante de sílabas e salivas), dos sonhos escritos em cada grão, de cada palmo do meu vulto silencioso. Assobia nas minhas orelhas o canto suave do silêncio. Em cada promessa um fracasso. Em cada palavra um dicionário a interpretar, um segredo entocado na vastidão dos teus olhos. Nos cabelos esvoaçantes enlaçam-se fios de alegria e alguns laços abstratos de fita azul (como as imagens criadas e imaginadas). Em cada investida uma renúncia. Em cada conquista uma pausa. Estou estático, tentando manter em equilíbrio os pensamentos que rodopiam.

Corro em disparada no solo arenoso como se me evadisse em fuga, como se pudesse ir de encontro a mim. À frente um deserto longínquo de tédio. Bateu-me a preguiça de tentar de novo. O horizonte é possível para todos, mas definitivamente não me atrai essa aposta. Conheço à exaustão as manobras da sedução. Abstraio-me dessas dores masoquistas. Até participei com entusiasmo inicial de jogos que se mostrariam inúteis, insuficientes. Queria apenas descobrir-me simples, tocar o céu com os dedos como se dedilhasse a textura das sensações. Queria a certeza das coisas verdadeiras, a fé do tangível, o  reencontro (pelo menos comigo). Quero por inteiro a cruz que me salva e a espada que preciso.

Tento lembrar da felicidade ausente, nunca sentida, nunca permitida, dos sonhos discutidos na razão inocente, dos sorrisos insossos transplantados dos enganos, dos tratados contraditórios. Convenço-me finalmente da inabilidade para fazer alguém feliz. Sou intenso demais para querer tão pouco. Por algum tempo mantive a possibilidade de desejar companhia, mas passou.  Não estou triste e nem tampouco derrotado. Ao contrário, uma segurança e autossuficiência me sustentam  e me estimulam a acreditar. Estou apenas contrariado por compreender o rompimento necessário do que poderia ter sido.

Deixo os sonhos para os que dormem. Os meus, que sejam acordados, espertos e reais.

                     

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Crise de memórias


E de repente um perfume impregna o ar e as lembranças. Passeia descomprometido diante do olfato. Entranha o fôlego e confunde-se com o oxigênio que banha a barba e o travesseiro. As mãos macias e delicadas deslizam com a certeza do que buscam alcançar. Suavemente mostram suas garras.

Os seios perfeitos insistem em não ficar de bicos calados. Insolentes desafiam a lei da gravidade e não se deixam abater. Falam com a linguagem da pele e exploram cada centímetro do corpo entregue. Petulantes, altivos, senhores de si, eretos. Fazem sulcos no peito submisso. Abrem trilhas nos arrepios, se encaixam na medida exata dos pecados de sentir, apalpar, de quase possuir com as mãos.

Desenha a ousadia de um número oito num trote inexplicável. Com a voz embargada, entrecortada pela lascívia dos desejos camuflados entre as rochas do recato, pronuncia em gestos pequenos a grande voracidade  de querer.

Mãos de desejos tateiam na madrugada as mesmas fantasias. Impõe resoluta e absoluta sua prece em forma de beijos. Parte ao meio supostas verdades, esmigalha em pedacinhos a compulsão entediante da repetição. Faz-se outra,  renasce sedutora numa manhã despenteada.   

Olhos expressivos ardem na despedida. Afastam-se com medo de partir, de não mais existirem. Transbordam em impotência, perdem-se no vácuo da distância, escurecem, petrificam, interrompem-se no sutil intervalo de um piscar de incerteza.

Umidade que afoga, língua quente que derrete a censura, invade com toques matreiros e macios os pés embaixo do cobertor. Vasculha sem pudor as encruzilhadas das virilhas, morde o ar que falta, suspira a paixão que sobra, mastiga as fantasias, acorda a libido, arrasta deliciosamente gotas e líquidos do pote prestes a explodir.

Atinge à queima roupa os esforços dobrados para não se curvarem à monotonia. Silencia com carícias e abraços longos o tempo que, falsamente sem graça, se prolonga nas curvas intrigantes daqueles instantes.

 Deixo-me dominar finalmente pelas memórias teimosas que durarão uma eternidade.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Por defesa


Todos (indiscriminadamente) se protegem em roupas emprestadas ou faces imaginadas perfeitas. Tudo por receio de expor algumas debilidades disfarçáveis e indefensáveis. Deparei-me dias atrás com um jovem olhando atentamente para o chão. Parecia absorto e enfeitiçado com algo aos seus pés. A passos curtos e lentos simplesmente girava. Poderia imaginar um louco em crise. Diferente disso fiquei imaginando o que aquela extravagante coreografia significava. Louco seria eu se deixasse de considerar que atrás daquele aparente disparate haviam milhões de pensamentos furiosos. O que o levaria a andar  em círculos como se pudesse alcançar no chão respostas para suas angústias? Que atenuante se encerrava naquele ritual excêntrico? Minha curiosidade estava desgarrada dos julgamentos. O que menos interessava para mim era a estética, como se vestia, seus hábitos diários. Queria sobretudo encontrar na sua "loucura" algum ponto de convergência comigo. Sempre observei no ser humano a nascente criadora de toda a originalidade que me fascina. Obviamente não enxerguei aquele rapaz numa esteira, praticando exercícios para voltar à forma. Nitidamente havia um cara perturbado. No mínimo surpreso por estar fora da zona de conforto. Compreendi metaforicamente que quando perdemos a capa maternal fica difícil administrar nossa fragilidade. Espaços vulneráveis ameaçam profundamente nossa condição de vivos. Fiquei imaginando portas que hesitei atravessar, situações de dor e embaraços que enfraqueceram minha ousadia de ver. Deveríamos olhar ao nosso redor com a intensidade de quem sugere interesse. Muito acima dos nossos interesses pode haver cenários fantásticos que por defesa, ignoramos.

Vejo assim, ou pelo menos procuro.

                                                     


domingo, 26 de fevereiro de 2012

O amor à espreita


Certamente será repentinamente surpreendida por uma astuta raposa que avançará sobre teus hábitos e te enlaçará em volta do pescoço uma pele diferente da sua. Esquecerá por uma vida que a vida que vivia era uma imposição e não uma escolha. Será ridícula vez em quando com contos de fada à bordo de um bote furado, com bilhetes açucarados, melados com apelidos caricatos. Esquecerá de si mesma e até das leis dos adultos, resumidas em não andar descalço (exceto para ser mais ágil). Não tomar chuva (exceto para ter companhia embaixo de um guarda-chuvas). Não ficar exposto ao sol do meio-dia (exceto para perder a hora sonhando). Não apoiar os cotovelos na mesa (exceto por admiração).  Não falar alto (exceto para fazer ecoar aos quatro cantos o amor que desconhecia e que inconscientemente evitava). Não falar com estranhos (exceto para aproximar-se da intimidade e tocar na privacidade). Deixar-se exposto na vontade de entregar-se.

 Dar-se-á conta que inadvertidamente ofereceu teu pescocinho imaculado para um desses vampiros prestes a abocanhar tua jugular. Junto com o sangue irá sugar sua fé, sua identidade, seu tempo, seu espaço, sua história. Bastará um breve toque na nuca para que se derreta feito manteiga, meia dúzia de  promessas embrulhadas em “verdades” por interesse, enfeitadas com laços trapaceiros. Sinto muito, descobrirá o verdadeiro sentido de estar em maus lençóis.

Surpresa, boquiaberta, despertará para olhares intensos, incompreensíveis, descarados. Atônita, verá belos e inesquecíveis sonhos em pesadelos. Participará atenta de narrações que não te incluem. Fará o possível para aparecer como destaque. Será a todo custo o gancho que faltava para um desfecho feliz. Desempenhará a mais perfeita das companheiras até perceber que o amor que alimentara era apenas uma chama que se apagaria com um simples espasmo de decisão: Não é suficiente.

Ouvirá sons de sinos por toda parte. Mudará a percepção das cores, dos defeitos, dos enfeites, das luzes, desse e de outros amores.