Páginas

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Histórias invisíveis


Anos atrás, conheci uma garotinha hiperativa, totalmente incompatível com a vassoura que empunhava. De cabelos encaracolados, olhos mel esverdeados e um olhar de hipnotizar até os mais distraídos (estou fora da relação).

Às vésperas de um noivado que se transformaria num casamento meses depois, não olhei para aquela menininha com olhares impuros (não carrego nenhum desvio característico dos pedófilos), simplesmente visualizei uma bela mulher que o tempo moldaria.

O relógio desenfreado encarrilou suas andanças incansáveis e seus ponteiros avançaram decisivos. Acompanharam minha separação, conspiraram, tramaram novo encontro com o passado. Aquela primeira impressão que profetizei se definiu. A ninfeta virou mulher e seus encantos me acertaram.  

Solteiro de novo, disponível para aventuras, novas histórias, apto e disposto a recomeçar. Engatamos um relacionamento que não duraria. Não poderia vingar (nossos interesses eram conflitantes). Enquanto ela buscava segurança, oferecia à minha maneira momentos fluídos, saldo insuficiente para tamanho empreendimento. Minha proposta era infinitamente inferior à suas ambições perfeitamente naturais.

Fui noticiado casualmente da sua morte recentemente. Um acidente fatal interrompeu a sua vida e todos os projetos em curso. Deixou um bebê com pouco tempo de vida que só a conhecerá através de fotos e comentários. Lamentável que suas memórias tenham sido simplificadas numa criança que nem teve o privilégio de sentir o seu cheiro.

Pensei de imediato numa afirmação repercutida no meu meio: Num velório é possível verificar o índice de popularidade da vítima. Fiquei sabendo do episódio meses depois do ocorrido (nem tive oportunidade de demonstrar minha presença). Desconfio que algumas pessoas continuam desconhecendo a fatalidade.

Onde quero chegar?

E o que ficou da história?

Se possuía algum cargo importante, certamente foi substituída.

Se constituiu bens, seguramente inventário e inventariantes (muitos) foram acionados.

A minha tristeza é por perceber o quanto valemos. No caso dela, praticamente nada.   

                                                         


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Envergonhado


Continuo observando no elemento humano a maior variedade de contrastes (faces, nuances, particularidades, possibilidades). Nada é tão interessante quanto a complexidade humana. É nela que encontro inspiração para respirar e escrever. Entretanto, certos acontecimentos me causam indignação. A simples classificação de humano às vezes soa estranho diante de certas atitudes (covardes, ratifico).

Um homem muito simples, humilde imigrante nordestino; iletrado, mas dono de uma gargalhada de causar inveja, um bom amigo da família.  Sempre presente no nosso cotidiano. Com profunda tristeza relatou seu drama e me deixou estarrecido. Depois de perder sua companheira (uma senhora que exalava o bem), foi convidado a se retirar da sua própria casa pelos seus filhos. Quando tentou regressar à sua cidade de origem foi impedido por outro filho que lá fixou residência. Enquanto relatava, lágrimas escapavam como alento aos olhos cansados. É claro que ele pode se valer de argumentações e respaldos jurídicos, mas é tarde demais. Senti que lhe faltam motivação. O sentido parece ter se afastado. A morte, abreviará o seu desgosto. 

Ainda assim, como disse Anne Frank, eu acredito na dignidade humana.

...Certamente com esforço.

                                                         


sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Fantasias


Quando entrei na sala logo vi seu rosto repetido em muitas histórias. Meu corpo entregue a manipulação (como se a mão fosse o  destino), ganhou inspiração e aspiração. Neurônios entraram em ebulição, trancos involuntários mexeram com a minha biologia. Estampava-se nos meus assomos esporádicos de insuficiência os atributos perfeitos para mais uma tentativa. O sentido todo arrumado entrou em colapso, a ordem saiu da rota, o tráfego fechou, as pernas adormeceram. Esqueci dos momentos atrás, dos sonhos dissimulados e das cicatrizes da realidade. O coração em trote indomável refletiu seus pulsos no meu uniforme azul. Denominei aquele conjunto de acaso, onde o seu nome foi o impacto do meu interesse. Sob o domínio das circunstâncias invisíveis deixei que meus olhos fechassem e meu corpo desmoronasse entre as ruínas de tantos fracassos (precisava acreditar de novo).  O incêndio se propagou sobre as ousadas e ardentes lembranças que guardei. Não buscava detalhes do amor lúdico (já  o compreendia e sabia  que a distância serviria de cautela). Perseguia a profundidade de valores que ainda desconhecia e  que,  por ironia me foi negado. Na minha frente, a surpresa disfarçada de desejos e a volúpia dos beijos roubados. Com a saciedade e o exasperado exagero das noites em claro desafogando nossas fantasias veio o vazio, a colisão de metas, o silêncio verificado na possível despedida.   

A lenta marcha dos pensamentos, a ruptura abrupta do raciocínio, os projetos desorganizados e o naufrágio inevitável daquele encontro. Foram feitas promessas que não se cumpririam, pactos que pareciam eternos, beijos que nos transportaram para locais desconhecidos. Insatisfações, traições imaginárias, fidelidade sob suspeita. O amor tão distante da história foi preterido, tomou rumo próprio. Levou consigo o estranho estado da nossa imobilidade. Debochado, ironizou da nossa fantasia.

O casamento aconteceu numa festa temática onde o traje obrigatório da fantasia foi respeitado. Rebelde, transmutou-se para outras narrativas. Foi brincar com outras histórias. Comigo, perdeu a graça.

                                            






quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Do avesso


Às vezes tenho ímpetos de furar bolos de aniversários, gargalhar em meio às lágrimas, andar de costas, fumar charuto, andar de charrete, avançar o sinal vermelho, colorir o céu de vermelho, asfixiar o mar, algemar as estrelas, galopar sobre o vento, capturar a liberdade como refém, degolar o silêncio, perder o fôlego num beijo, transar por horas a fio no topo de um edifício, brincar do jogar capoeira com uma velhinha, encoleirar os pensamentos, empoleirar os segundos, achar o ridículo engraçado, ser o tédio de agora, esgotar o vácuo inútil, alvejar um falcão em vôo, conspirar, transgredir, violar o anonimato, não sentir, não sofrer a dor, não ter medo, entrar no mar de sapatos, explorar meus pontos inconstantes, constranger um elevador em operação com cenas tórridas e impróprias, me equilibrar em trilhos antigos com vagões enferrujados, gostar de pamonhas, abominar camarão, tombar sobre pilhas de textos incompreensíveis, escrever de olhos fechados, compreender as teorias do Freud, tolerar os imbecis, navegar ileso num rio de piranhas, ser imune ao esquecimento, transformar o côncavo em convexo, voltar a dormir no tapete, caminhar por estradas assombradas, abdicar das boas maneiras, assumir uma das identidades mais cruéis dos humanos: a indiferença, reconsiderar o egoísmo como necessário, confiscar a moeda do tio patinhas, destruir com socos os sorrisos facínoras e os olhares opostos. Diametralmente, me convencer que nem de longe sou a melhor escolha. Exerço apenas um esforço sobre-humano em mudar a história. Ao invés do avesso quero ser visto ao inverso. Mudar de lugar, confrontar, discordar, exceder, omitir são argumentos válidos, mas o que preciso mesmo é me reinventar (ou melhor, não inventar uma imagem baseada na aparência. Renascer exatamente igual – já sentia falta de mim).

 Aqui estou, tão imperfeito como antes.





sábado, 10 de setembro de 2011

Metade máquina


 Carrego nas vísceras engrenagens robóticas. Divido as emoções do coração com sistemas e planilhas minuciosamente calculadas. Aprendi a não sofrer de graça, a não jogar milho aos pombos simplesmente sentado numa praça. Se um dia sofri em silêncio, abafando dores que julgava necessárias, hoje resgato as peças para serem lubrificadas e as adapto à minha proteção.

Esquecidos sobre mim hibernam feras enjauladas e famintas. Do meu lago plácido evaporam monstros indomáveis. Crescem urtigas no meu estômago, nascem calos na minha voz, estouram bombas nas minhas pernas, dependuram-se morcegos na minha luz. Agoniza um homem de carne, ossos, sangue e cérebro, transformado (ironicamente) em mais uma sucata.   

Já fui desonesto e covarde por fingir apetite sexual, quando na verdade havia saciado-o horas atrás, menti sobre verdades que eu acreditava, seduzi umas três virgens ainda lacradas por opção. Fui a salvação farsante de um crime sem fiança (violei confianças). Sem pudor, pisei na inocência, coagi e caçoei dos sonhos que não me pertenciam.

Juro que parei. A pausa aconteceu não por acaso. Joguei para o alto metade do meu corpo que ainda sentia. Agora sou só uma armadura.

Melhor assim...

                                                      


domingo, 4 de setembro de 2011

Sem censura


 Sinto um misto de aflição e excitação com a tua língua preenchendo minha orelha, percorrendo os arrepios do meu pescoço, desvendando cada sussurro pronunciado por pelos eriçados e pela colisão de dentes e línguas. O cheiro afrodisíaco e indefectível dos cabelos e o toque mágico dos teus dedos assanham a imaginação e provocam as chamas da libido. Demônios e feromônios entram em cena e juntam-se a nós. Fazem nós nos nossos fetiches: rendas vermelhas e corpo nu.

Os batimentos cardíacos aceleram, os vasos se expandem, o sangue que passeia por todos os cômodos prioriza a represa de um corpo em asfixia, de um pêndulo que almeja outras alturas. A flacidez preguiçosa e sem inspiração ganha contornos, diâmetros e ereções. Pulsa com rigidez as polegadas aflitas por hospedagem. 

Na linha da cintura dispõe-se em breve repouso um objeto irracional, irresponsavelmente guiado por estímulos instintivos de animais em fúria. Em espasmos involuntários, clama por agasalho. Os gemidos soltos nos galopes da penumbra iluminam a poesia de um corpo estendido sobre as lembranças de tantos instantes censurados (menos por nós).

Por fim, cospe as sementes após o consumo das delicias de um figo de polpa doce e delicada.



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A silhueta


Mais uma madrugada no Bixiga. Nas cantinas invadidas por imigrantes italianos, um bando de boêmios incomoda a tranquilidade. Às mesas de madeiras forradas com toalhas quadriculadas, um quadro com fotos de personalidades na parede rústica que registra a passagem de outras histórias (não maior que a minha), famílias barulhentas gesticulando seu dialeto reconhecidamente italiano, loirinhos endiabrados de olhos claros, ignorando o relógio que exige pontualidade britânica e rigidez nos compromissos. Misturado ao molho de ervas e pimentas,  o ácido dos depoimentos.

Depois de incontáveis cervejas e pizzas como petiscos – ritual frequente dos loucos (incluíam-me neste pacote). Após o trabalho somos só festa. Rola de tudo: violões, olhares de medusa, toques embaixo das mesas, mulheres deliciosamente sem crachás e casacos, decotes pronunciados e saias minúsculas, bilhetes manchados de confidências, cinzas e declarações, brigas e rachas para rachar o prejuízo na saída. Moedas ganham valores estratosféricos nessa hora. Bolsos descapitalizados e corações afortunados. Somos muitos, não nos abandonamos em lágrimas ou euforias. Sem hipocrisia, sabemos de verdade o sabor da alegria.  

À saída, somos surpreendidos por duas garotas nas escadarias do recinto de copo na mão e o suor de quem disparou em correria. Já conhecia uma delas e confesso que fiquei envaidecido (no primeiro instante) com a presença de uma em especial. Decepcionado, não era a mim que seguiam, mas a um amigo presente (que por sinal, saiu da lá nos braços de outra). Seguiu-se um festival de ironias, discórdias e ataques infundados. Não admitia que um possível sentimento estivesse me assediando. Para evitar maiores desequilíbrios, me equilibro no resto de razão e entro no carro.   

Do interior do veículo em movimento as luzes da cidade dançam. O alvorecer encena-se de várias tonalidades, onde a cor laranja é suprema.  Prédios e edifícios parecem disputar corrida com o acelerador. A fumaça expulsa dos carros em forma de poluentes se mistura com a névoa que embrulha as esquinas.  As padarias resmungam a servil obediência londrina do despertador.  Entre cochilos e orgulho arranhado  algo me desperta...

Observo bem no alto de um prédio recém construído a silhueta de uma mulher ao piano. Indiferente ao contraste da dores da maioria, em silêncio, simplesmente  toca, sem saber que está sendo observada por segundos.

Percebo nesses momentos o quanto a vida vale a pena  e o quanto deixamos  escapar momentos especiais como aquele.  

                                                                


sábado, 20 de agosto de 2011

Irracional


Velhos de mãos dadas (atadas) se dirigem à praia para se suicidarem. São cercados de anjos manchados de roxo e caracóis desenhados nas harpas. Entre aspas, cólera e farra apertam a areia como se pudessem dominá-la. Sob nuvens delicadas exibem a textura de seda das suas faces coradas. Expõem argumentos coerentes a favor da vida, mas não são capazes de evitar os maremotos que virão. Sem explicação concreta, me vem à mente centenas de casais andando descalços dentro de uma bolha, tentando romper o elástico material plástico. Sufocados, em mutirão tentam mutilar a redoma infindável dos equívocos. Por um fio, em desafio à experiência se entregam aos braços suicidas do cansaço. Desfazem-se os laços da ilusão. Erguem-se as portas secretas das exclamações e das buscas. Fôlegos são requeridos no ar que respira lá fora. Reconheço que não ter percorrido o Caminho de Santiago a cada dia se revela numa grande frustração. Amante de trilhas, tenho absoluta certeza que antes de arrebentar a bolha, vou atravessar a experiência. Posso até adiantar os encontros, as imagens, os crucifixos, os sacrifícios, as mochilas estourando de histórias e aventuras inconcebíveis, as renúncias aos prazeres imediatos, as lagartixas largadas na beira da estrada, misturando o verde da suas costas com o vermelho valente do sol. Vejo bolha nos pés empoeirados da jornada imprevisível e descubro porque a previsibilidade está fora dos meus planos (procuro roteiros inéditos, mapas sem marcas, histórias inteiras - sem cortes nem retoques, histórias originais envolventes que seduzam com bom humor e toques de verdades).  Os intrincados fatos que intrigam a mente dos pensadores estão em extinção e, sobre este globo revestido de espessas camadas de repetições, novas petições são impetradas. Àqueles ingredientes clássicos maciçamente explorados em exagero (ciúmes, amores suspensos, paixões irracionais), adiciono truques racionais de convivência: tolero.

Administro minha rebeldia.  

                                                             



terça-feira, 16 de agosto de 2011

Por onde começo?


Olho ao redor e ando em círculos, apalpando os absurdos... Surdamente, de ouvidos se secretos, orelhas em riste, cenho curioso, esmiuçando os degraus dos meus naufrágios. Destruí as velas, apaguei os faróis e do outro lado da margem só um ponto sagrado escrito em vermelho: Descubra a saída. Na mesa, os pães pelando de quente e o leite gritando numa leiteira em fogo fervente. Dou voltas na mesa, ataco uma maçã a mordidas (como se todas as culpas do mundo estivessem na simbologia das suas tentações). As marcas dos dentes cravados revelam a crueldade quase vampiresca da mandíbula mordaz e dos caninos impressos na polpa tenra da minha vingança desnecessária.

A cama aliviada do meu peso ainda queima. Solitária, sobraram os lençóis amarfanhados, banhados pelos vestígios materiais, resquícios de batom e perfume misturados com seda e cigarros. Como protagonistas, dois corpos vencidos pelo tédio inevitável. Só o amor sobrevive sobre a paixão enfurecida que tem validade estabelecida. A exclusividade do pós, escavada a golpes simultâneos só é permitida (objetivamente) no descompromisso, na ausência de apólices. Após o êxtase, a colisão entre duas diferenças metabólicas  são inevitáveis (ainda que sob protestos). Enquanto o homem dorme a mulher sonha.

Um sofá no quarto amplo, uma estante com livros esquecidos e um gato ligeiro, de olhar intrigante. Amola suas unhas nas fibras do tecido mostarda e, com um novelo, brinca de pulo mortal, desafia as leis Newtonianas e cria sua própria extensão. Ocupa toda a largura do cômodo. Torna-se dono do espaço conquistado com a garantia dos seus bigodes.

À minha volta, gargalhadas e pouco caso do acaso. A verdade absoluta é manipulada, tripudiada, tratada com rechaço. Enquanto me concentro em detalhes filosóficos a vida segue impassível sua rotina. Nesse labirinto, onde buscamos aceleradamente encontrar saídas, sento à beira do caminho e contemplo as formigas que seguem em fileira a fila incansável das repetidas  perguntas.

                                                            



segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Tempo perdido


Acordo sobressaltado com as horas que parecem voar, escapando por todas as brechas, escorrendo velozes pelos furos da minha displicência. Esfrego os olhos, calço desajeitado os chinelos, tento organizar mentalmente a minha agenda. Sem perceber (mecanicamente) faço como outras vezes... Viro escravo do hábito. Sou uma taxa significativa de repetições nesse gráfico que às vezes, ousa despertar. Essa ditadura duradoura que as regras dos homens e nos colocam plantados diante das grades intransponíveis do destino.

Meu filho, que largou as fraldas há anos, que desafiou a minha nostalgia por estar ficando além de ultrapassado, órfão. (ironicamente, sinto-o se afastando a cada namoradinha, a cada nova descoberta). Subitamente atingiu outras alturas, destinos que meus olhos mesmo em olhares espichados, não o alcançariam. Diariamente, vejo uma marca que temos em comum, se deslocar arrogante. Em contestação, tenta obstruir a supremacia dos genes. Quando brincávamos na areia de moldar castelos, antes de materializá-los, vieram as ondas e afogaram nossas criações.  Por um lado foi bom: aprendemos que a nossa engenharia era frágil. Acertos e negociações foram necessários (e de comum acordo, acordamos).

Não quero falar dos erros nem dos acertos, já eles foram tão necessários quanto inevitáveis. Sou um eterno parêntese entreaberto, maturado pelas perdas e danificado quanto às peças que me faltam. Do tempo perdido, ficou o exílio da minha saudade e a garantia estendida de outros tropeços. Permito-me (teimosamente) estar visceralmente apaixonado, mas alerto: novas cláusulas foram acrescidas no contrato. Entrou em vigor novo regimento, onde o amor desfigurado foi reconfigurado no amor próprio. 

                                                                     




 

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sem meias palavras

 

Com o vigor do tempo e suas manobras decisivas aprendi a ser incisivo. Cabisbaixo, tive receio e dúvidas, usei pretextos (que hoje seriam classificados como covardes), escureci meu texto. A sensação de vácuo no vazio das minhas frustrações foi substituída por estímulos, por novas atitudes, por uma escrita mais legível. Quando deixava que as lágrimas mirins afogassem meus caprichos ilusórios, ignorava que a seguir seria observado pelos olhos enxutos da certeza e da maturidade. Foi-se embora a dramaticidade e ficou o equilíbrio. Desanuviaram-se as nuvens contraditórias da contramão. Dissipou-se a fumaça que cobria de cinza o fogo da minha espera (os 18 anos pareciam improváveis).   

Na copa frondosa de mangueiras e goiabeiras catava (ou roubava) frutas frescas. O que tirava no pé, o consumo industrializou. O ultimato radical erradicou drasticamente meus sabores do passado. O silêncio das luzes longínquas e intermitentes adquiriu brilho próprio, atingiu outras dimensões, tornou-se razoavelmente suficiente. 

As tralhas acondicionadas sob tênues condições, romperam extremadas as extremidades da inutilidade. Foram descartadas como cascas de cebola, como caroços de manga. Da impotência algemada e amordaçada foram acionados gatilhos de sobrevivência, mecanismos de defesa.

Das dores abissais (dimensionadas em aumento), busquei os méritos que por tolice não reivindicava. Aquele racker que encontrei na fila do teatro abarrotado me ensinou a brincar de forca enquanto esperava. Sentado no chão descobri o quanto tenho de opostos. Aposto que ganhei em transformar as meias palavras em termos exatos. Desconfiado daquela figura de boné, chinelo e gírias, Submeti-me à face oculta que me escondia. Obrigou-me a sacolejar meus preconceitos. Fez-me esquecer dos julgamentos (há muito não me dava acesso ao riso). 

Tudo faz sentido quando falo pouco e compreendo mais.



terça-feira, 26 de julho de 2011

Encontro inusitado


Muito conservador, sempre ofereci resistência ao extravagante (insegurança que foi quebrada).

Numa noite atípica de inverno, com luzes amarelas em postes corrompidos por propagandas de telesexo, fui parar às cinco da manhã em frente a uma prostituta que estuprou minha ignorância. Compreendi que acima das minhas esfarrapadas conclusões existiam outras verdades que, por hipocrisia do sistema refugava.

A história se repete: depois de vários goles de álcool (nem tenho idéia de quantos), de repente, fui convidado a conhecer uma casa com um néon vermelho na entrada: relax for men. Estava num bordel à bordo de novas descobertas.

Como um homem pode relaxar nessas circunstâncias? Até concordo que após o êxtase o relaxamento será uma consequência. Ainda mais quando se está literalmente inflamável.

Vigiados por todos os lados de seguranças desnecessários, fomos cercados por meretrizes ávidas por comercializar o corpo. Meu amigo, bem familiarizado com a situação, de copo na mão, colocou-se à vontade entre duas moedas de troca: uma negra de lábios acolchoados e a outra espalhafatosa, sem modos e ao seu modo, denunciava suas funções.

Num balcão de madeira, iluminados por luzes avermelhadas, refletidos em espelhos antigos, eu e uma dama de negro iniciamos nosso jogo. Ri desconcertado da sua piada quanto ao meu transporte (infinitamente inferior ao seu). Percebi nítida habilidade com as mãos (impossível não me imaginar ao cuidados de uma gueixa). Seus toques aveludados me derreteriam facilmente numa massagem ou simples bofetada. (que fique claro que não sou adepto de nenhuma forma de sexo anticonvencional).

Compreendemos nossas buscas. Enquanto ela (pragmaticamente) isolara suas ilusões adolescentes, dispensara a imagem futura de dois velhinhos numa poltrona em silêncio frio e Constrangedor. Sem máscaras e vestida despertou a minha libido indomável. Havia um quê de magia naquele caldeirão que fumegava a cada trago no cigarro, a cada cruzada de pernas. Eu, imaturamente refazia meus cálculos e reprogramava meus conceitos. Uma filha justificava sua heresia. O sexo pago não era fruto das fantasias impuras de uma devassa. Sua contravenção ganhava cada vez mais sentido à medida que enxergava o brilho dos seus olhos e a nobreza da maternidade. Percebi que o amor possui outras vertentes que só a coragem pode explicar.

Não houve clima para transa e a minha disposição (convenhamos), cambaleava. Houve apenas um beijo quase de súplica. Metade bêbado, metade melancia. Afastei-me por imposição das horas, mas com os olhos voltados na direção do que havia deixado para trás, do que por imbecilidade desprezara.

                                                               





quinta-feira, 21 de julho de 2011

Texto silencioso


Se questionarem porque escrevo, mostrarei meus dedos lambuzados de tinta, meus rascunhos sufocados entre a inspiração e a fantasia, minha voz inquieta que encontra sossego nas margens fecundas das páginas que carrego embaixo dos dedos.  O súbito das idéias que crescem vêm dos loucos, dos exagerados, dos velhos que se renovam, dos novos que envelhecem e morrem a cada segundos, dos ideais inalcançáveis, dos meus olhos piratas em busca dos tesouros (que talvez estejam à minha espera), ou que, em represália, restrinjam meus limites amadores.

O passado, cansado passou. Resolveu corrigir a seu modo as desavenças do destino. Não são ameaçadoras suas imposições, são óbvios e naturais seus argumentos. As franjas escorridas separam o real e o invisível. Não consigo compreender-me no ato e nem de fato. Os verbos flexionados e conjugados na paciência me aguardam nessa equação. De tal dispersão, com frequência, me perco de vista. O medo que tenho do homem que sou (um sopro) que Deus definiu como um beco sem saída, um mistério além dos seus intrigantes caprichos. Com o tempo aprendi a conviver comigo, a entender as maldades e perseguições que me revestem. Ao dormir, sou presa fácil. Seria demolido como uma marreta no frágil material da minha carcaça. Por sorte, encontramos em nós algum ponto de atração: nos admiramos.

Esse escrever gratuito entra em combate com o silêncio da privacidade. Embaralho frases dialogadas no subterrâneo covarde de todas as fugas. Reconheço que sou imaterial. Salvo as boas intenções, sou impalpável. Escrevo para me afastar do gesto solitário do egoísmo, para me aproximar do ser inextinguível que sou.

Escrevo na frivolidade do acaso, por um fio me arrisco. Assumo o risco.

                                                                      


terça-feira, 19 de julho de 2011

Antigas crendices


Na minha cidade de origem, mantinha-se o hábito de colocar uma vela na mão de quem estava falecendo. Na simbologia dos mais velhos, a vela representava uma espécie de absolvição – Como se a matéria prestes a desencarnar tivesse os pecados perdoados com o ritual da superstição legitimado. Sem esse protocolo, era impossível se alcançar a salvação.

Houve um fato ocorrido há muito tempo, que um rapaz muito popular ao atravessar uma torrencial inundação foi tragado pela fúria de um rio. Com frequência, o pai dele (com a determinação de quem ama)  ainda vasculhava pontos do rio onde supostamente ocorrera o afogamento. Com uma cumbuca – espécie de cabaça, depositava uma vela acesa e devassava o curso das águas. Acreditava-se que onde o recipiente parasse, seria o local exato onde se encontraria o corpo.     

Sempre ouvia comentários sobre maus presságios caso encontrasse um cortejo fúnebre. Certo dia, voltando do colégio, ao virar a esquina, fui surpreendido com uma caravana que entoava cantos tristes e orações fúnebres. Não havia castiçais, coroas de flores nem guarda chuvas protegendo senhoras com seus chapéus cobertos por véus. Ao lado do corpo esquálido, só a dor da perda e os meus arrepios. Evidente que nenhum embasamento científico está determinado nessas superstições, ainda que acredite na sabedoria do que pouco sabemos.

                                                          




sábado, 16 de julho de 2011

Refúgio inviolável

 

Num final de tarde com o sol em declínio, as manchas encarnadas do entardecer resumem os milagres do seu corpo exposto. Com a provável aparição da lua, as estrelas em comboio parecem mais próximas. Em reverência, dispõem-se cúmplices ao meu intervalo (extremamente necessário). Esqueço por um instante do meu tamanho e, num delírio, sou Deus.

No rádio, o silêncio constrangedor é quebrado pela Marisa Monte e pela beleza indescritível do milharal de um verde absurdamente exibicionista. Hectares aos bandos, em sincronia uniforme se dobram com o agito do vento. Pela janela do veículo vejo a paz da noite que se aproxima. A natureza se derrama aos exageros em torrentes impetuosas de ostentações, com a soberba de quem tem consciência da sua superioridade.

E o que falar das memórias?

Peito rasgado pelos teus seios afiados. Nas costas, o dorso talhado pelas tuas unhas musculosas. Os vincos deixados como vestígios da posse é um traço claro da quase perda. Na garganta, as sobras do mel da tua saliva. O teu corpo insaciável, deliciosamente depositado nos desejos lascivos sugeridos nas palavras sussurradas com o hálito quente, silenciadas com a minha boca aprendiz.

O encontro selvagem com uma degenerada na selva. Sob o  jeans delineia-se o volume aparente do tesão retesado da imaginação e da luxúria encoberta pela discrição. Glúteos estrepados pelos filetes das pedras e o sexo esfolado pelas estripulias, arregaçado à exaustão.

Sobrevivi.

http://www.templatesdalua.kit.net/imagens/divisorias/b34.gif

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Em busca dos sapatos


De barriga crescida e estômago escoltado pela fome, rompe desnorteado ao norte, movido por uma força ancestral que ele desconhece. Pouco conhece dos seus antepassados. Seu passado é o presente e está concentrado nos pés descalços, na pele encarquilhada dos seus motores. De passagem na passarela da procura, dribla automóveis de olhos abertos, cruza o fogo cruzado dos grossos calibres, desvenda o mistério escondido nas esquinas, contorna os postes sobrecarregados de fios clandestinos. Entre as chamas que varrem a favela, segue obstinado a pista dos seus sapatos.

Ignora obesas prostitutas, pisoteia ervas que enervam, demonstra apatia às partituras de Mozart e Beethoven - que são ensaiadas por seus colegas de pelada. O único som que interessa são dos seus passos que levantam poeira, que estremecem a base frágil da madeira que equilibra seus pares, que desequilibra a igualdade.

Há os que usam mocassins de crocodilo, sapatos italianos.

E, ainda há (como esse menino) os que correm atrás dos simples sapatos.

(Esse menino existe e Deus há de tê-lo guiado).

                                                             


sábado, 2 de julho de 2011

O som do movimento


Em plateia quase soturna sigo o roteiro de uma bailarina em seus rodopios graciosos, onde mãos delicadas trafegam no ritmo da música que ouço. Numa coreografia secreta, laços e sapatilha entregues à captura dos meus olhos brilhantes e à música imaginária. Seus passos de garça carregam a graça da melodia dos céus. Movimenta-se baixinho na frente do espelho, vestida de vermelho para contestar o rosa. Meias de seda revestem as panturrilhas torneadas e sublimes. Cabelos fixos por uma rede de renda, nas faces covas que dançam junto com seu sorriso de menina. Do corpo de porcelana, como de outros, partem sons que ouvidos sensíveis decifram...

Uma ninfa flutua a pureza dos seus movimentos. Embevecido, me agarro aos acordes da sonata e, em silêncio roubo sem qualquer constrangimento as estrelas do seu palco iluminado.  As parábolas da alma estão todas ali, disfarçadas de virgem. Ao som de um violino envaidecido, faz galhofa da minha fábula.

Em paralelo ao natural, baila de costas. À medida que se afasta, ganha amplitude de espaços e esvoaçam-se os trilhos da lógica. Só não contava com as surpresas situadas ao fundo. Nenhuma precaução, nenhuma cautela com a direção arriscada. Uma única olhadela por cima dos ombros para ganhar noção do terreno evitaria contratempos. Precipícios são possíveis e os tombos prováveis. Todas as bailarinas desistiram ou estão imóveis. Fecharam a caixa de música, apagaram as luzes e adormeceram.

Ainda assim, ouço os ruídos do vento.

                                                            

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Brincando com a hipocrisia


Com frequência, bruscamente sou assustado pela imagem nítida da minha infância, onde lembranças vivas ainda resistem ao tempo por cerca de 30 anos.

Todos os dias meu irmão e eu saíamos em disparada para o colégio. Atrasados, desatávamos o barulho inevitável da nossa pressa saudável nas escadarias do terceiro andar do prédio onde morávamos.

Senhoras recalcadas, hipócritas, falsas moralistas reclamavam das nossas peripécias. O barulho de crianças demoníacas (segundo elas), afrontava suas pressupostas prerrogativas à salvação. A nossa alegria causava-lhes desconforto. Nas noites de domingo, vestidas de longas saias escondendo as pernas brancas, sem graça, improváveis de desejos. Mascaravam-se sob véus escuros, a obscuridade mental das suas maldosas fofocas. Sempre ouvíamos indignados, os gritos desesperados de uma criança sendo castigada.

Esboços paroquiais fajutos, espreitam às janelas a rotina dos simples transeuntes, na busca de elementos que venham  incrementar suas vidas medíocres. Praticam novenas, decoram a bíblia e andam de braços dados com ela, como se possuíssem a fórmula da verdade.

De volta do colégio, atentos a qualquer detalhe que pudessem ser usados como matéria para nossas aventuras, tropeçamos em dezenas de folhas rasgadas de revistas pornográficas. Maliciosamente, entreolhamo-nos e com sorrisos irônicos, em sincronicidade pensamos nas beatas. Escolhemos minuciosamente as poses mais escancaradas e sem o menor constrangimento avançamos nossa molecagem. Em cada porta, depositamos estrategicamente recortes da suruba. Ficamos imaginando as caras atônitas das puritanas. Quem sabe tenham usado as figuras indecentes como inspirações para os seus discursos duvidosos.

Vingados, às gargalhadas seguimos para a próxima traquinagem.

Irmão, você partiu cedo demais. Às vezes me flagro rindo sozinho e olho para o vazio tentando enxergar teu sorriso sarcástico.  Tomara que possa me visitar vez em quando...

                                                                

                                            

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Esmaguei uma esperança



Antes de conseguir traduzir o significado daquele inseto verde, grandes antenas, olhos protuberantes e estranhos, asas inquietas e petulantes (aos meus olhos um alienígena), pisei na sua cabeça e dilacerei suas patas. Interpretar naquele bicho sorte e bons presságios foi naquele momento inconcebível. Meu álibi: Era assustador para uma criança.

Atrevida e inconveniente, em sobrevoo desajeitado pousou inadvertidamente sobre as minhas pernas. Sondado pelo sadismo pouco observado nas crianças, investi contra o estrangeiro e exterminei com a aflição que me causava.

Pezinhos incipientes marcham furiosos sobre o intruso. Ouve-se como um estalar de ossos. Um imaginário esqueleto frágil, desmanchado. Sob o piso marmoreado esparrama-se junto com a vítima, minha culpa e um prazer cruel, egoísta, mórbido (quase compreendo a mente dos assassinos). Por breves segundos senti um estranho poder, um naco de imortalidade. Aquele corpo tênue e franzino dificultava o meu toque descuidado. Crianças gostam do sentir pelo tato. Além dos estímulos visuais precisam do contato físico.  


Irritado pela coordenação descoordenada das mãos, pela impotência de não tê-la caprichosamente na palma da mão, covardemente a abati.    

Ao usar esse texto para representar meu eu incompleto, fico imaginando a infinidade de esperanças que pisoteamos, na vaidade que alimentamos para engordar o ego em queda constante.

Ainda cresço... E, uma vez grande, alcançarei outras alturas.

                                                             



quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ilusão de ótica


Deitada sobre um tapete de grama, à beira de um lago plácido, espicha-se nua uma alma sem pudores. Tremores convulsivos e a febre dos desejos aquecem os sentidos. Enfeita de azul o ocre das sensações. A pele corada adorna meus pensamentos em malícia saliente. Meu corpo, em reação imediata, ergue-se incontrolável. Intrometido, anseia afundar-se nas suas entranhas, mordendo a isca lançada por deboche ao alcance dos fracos e suscetíveis. Indecentes suspiros se eriçam e quase deito com ela para silenciar o tormento que urra. Quase bronzeada, espreguiçando-se, estica suas curvas em arco deixando à mostra ondas atrevidas dos seios morenos. Em transitório instante de felicidade, desfruta da natureza que o astro presunçoso propaga em flashes o seu humor de verão. No encalço de um suposto paraíso clandestino, argumenta com sua beleza divina e ameaça a minha blasfêmia (dentre tantas). 

Move-se sedutora em posições verticais, esgueirando suas formas suaves pelo meu solo arenoso. Despachada no palco que ainda não tenho acesso, dispersa seus sabores e aumenta minha gula em jejum. Terna, brilhante e desinibida oferece a arbitrariedade do seu corpo exposto, do seu rosto calmo e espírito lúcido.  

Aparentemente exaurida, entrega-se à sesta restauradora e comprime a ilusão da eternidade que muitas vezes é confundida com direito adquirido. No desembaraço de um sonho casto, castrado no cansaço, descansa a ousadia nos braços tortos do acaso. Bela e traiçoeira, municiada de encantos, enfeitiça e embaralha minhas feições de insegurança. A minha timidez frente à sua beleza intimida.

Já que não posso penetrar o teu corpo transparente, transpor as tiras da tua superfície fresca, invado o reino das palavras, a fórmula das conjugações, a poesia do teu canto oculto encoberto pelas plumas de uma miragem imaterial. Na mudez sábia e elástica do teu dicionário, reclino as inspirações da poesia do teu corpo desfolhado.

Seria uma miragem?

                                                           

sábado, 28 de maio de 2011

Excentricidades


Carrego uma bala alojada na espinha como amuleto. As vértebras, cravejadas de ironia, às vezes cambaleiam num balé esquisito. Os vasos engalfinhados formam as nervuras do sangue que jorra intrépido e descoagulado. Entre abalos e afagos me divirto.

Os cabelos em corte moicano ou rebelados revelam os tufos desalinhados embaixo de um turbante negro. As madeixas em mechas desaprumadas insistem em esvoaçar sob as carícias e o toque dos teus dedos. Olhos caídos, às vezes murchos, desfigurados. Outras vezes, ambíguos, amplos e misteriosos.  Combinam expressão, sedução e profecias.

As estrias, corredeiras do mal anunciado, cicatrizes inevitáveis das rosas a desabrochar. As pétalas podem sofrer a dor do encanto esvaído. Ainda resiste o caule que continuará brotando e atento ao corpo renovado. As células pulsam e fervem na dança do renascimento.

Nos ombros, transportamos a carga e as fivelas pressionadas pelo destino. As excentricidades em forma de manias, compulsões, caprichos ou obsessões são as digitais originais da identidade. O peso opressivo da memória contrasta com os horizontes da fachada das nossas disparidades excêntricas.     

O coração assustado pelo repique estridente dos alvoroços, navalhado pelos golpes exatos do tempo. Ressoam à volta os açoites retumbantes e escandalosos de uma sirene espalhafatosa. Os baques de um corpo que ameaça cair em destroço são abafados pela maciez da compostura, pelo vento que sopra a brisa do silêncio.

No matagal infestado de incertezas, um comboio de luzes aflitas controla a direção e os sentidos (inclusive os contrários). Marcham absortos os tripulantes em direção ao cais. Lanças pontiagudas e contundentes empatam a travessia. A embarcação de papel estremece na colisão das cores anêmicas do possível naufrágio.

No limiar do castelo de cartas marcadas, uma barricada de troncos, pedras, cimento e uma única sentinela que vela por todos os excêntricos.